sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Cuidado na formulação

O irmão Doka reagiu (ver link à direita) às declarações do Primeiro-Ministro de Cabo Verde, e com razão: é preciso cuidado nas formulações e o senhor José Maria Neves já deveria ter noção disso; muito cuidado com as palavras e respeito pela soberania da Guiné-Bissau.

Cabo Verde «irá apoiar na reforma das Forças Armadas»? Se for convidado para isso... Tal como irá normalizar as relações com a Guiné-Bissau, se a outra parte se mostrar disponível, não depende só de Cabo Verde; para uma relação, são necessários dois, em comunhão de vontades.

Dar as coisas por adquiridas não é decerto a forma diplomaticamente correcta de o fazer. Isto parece estar a tornar-se um padrão de actuação. Assim, à força, à bruta, não vamos a lado nenhum... Voltem para a escola de boas maneiras. Cresçam e apareçam!

Ninguém se esqueceu das violentas críticas à CEDEAO, por parte da CPLP, que Cabo Verde subscreveu. Agora, no «âmbito» dessa organização regional, querem assumir um papel de «destaque» e de superioridade? Com que legitimidade? Não está nada bem.

P.S. Acredito, no entanto, na boa fé de José Maria Neves, devendo o facto ser imputado a alguma inépcia política, que não coloca em causa a sua actuação; deverá, no futuro, revelar maior perspicácia e respeito por aquele que chama de povo irmão (mais velho).

Ainda as eleições

Ainda não há anúncio oficial de «nova data» para as eleições. Faltam agora 30 dias para a data marcada.

Há uma grande hipocrisia nisto tudo: as eleições estão desde já a ser dadas como inválidas, por Cadogo, o futuro perdedor, que já começou a inventar desculpas para depois reclamar; alguns chegam a chamar «palhaçada» ao acto; o PAIGC implodiu, dissolveu-se neste marasmo.

Com um ficheiro eleitoral que já há dois anos estava desactualizado (o que contribuiu para a percepção da tentativa de golpe de Cadogo, de «forçar a nota», com muitos jovens em idade de votar a manifestar nas ruas), há que refazer tudo... mas muitos, de ambos os lados, contestam.

Uma solução ainda mais simples e barata (coisa para mil dólares), pouco científica mas também a salvo de grandes desvios: comprem-se uns baldes de tinta indelével (por uns dias) para lambuzar os polegares e peça-se à tropa para passear (e proteger) urnas móveis a circular pelo país.

Quem estiver, está (nem é preciso identificação, basta um polegar asseado); quem não estiver, que se lixe. Os militares poderiam guardar «o troco» e o resultado seria fiel e fidedigno, sem riscos de influências externas e ingerências encapotadas. Mas votar em quê? Em soluções.

O conceito de Partido está desacreditado e desactualizado. Havendo essencialmente duas propostas em cima da mesa, era isso que deveria ser perguntado ao Povo. Cadogo versus Injai: não vale a pena estar com meias medidas: preferem o tubarão ou o crocodilo? Escolham.

Injai demitir-se-ia do cargo de CEMFA, mantendo-se como «padrinho» de um novo governo, que entregaria «a outro» (segundo as suas próprias palavras), que responderia perante ele. Cadogo não seria solução, apenas mais do mesmo, mas, pronto, teria a oportunidade de o constatar.

A data das eleições deveria ser respeitada, senão parece que se anda a brincar.

Doa Ti, 'Môr

Ainda anteontem, na RTP África, Ramos Horta fazia o balanço das suas diligências no sentido de reunir os 20 milhões de dólares orçamentados pela CNE para a realização de eleições.Tinha-se já deslocado a Abuja e Abidjan, reunindo cerca de 13 milhões com proveniência da CEDEAO; mais 2 milhões entretanto oferecidos pela UE, com mais uns trocos e 1 milhão já oferecidos por Timor, faltavam grosso modo 3 milhões de euros.

Timor oferece-se para disponibilizar a quantia em falta, três milhões de euros, totalizando assim os vinte milhões. O anúncio foi hoje feito, perfazendo um contributo de quatro milhões de euros (um que já tinham oferecido e mais três para completar). É realmente uma atitude que revela imensa boa vontade (um país tão pequeno, do outro lado do mundo, oferece mais do dobro da União Europeia). Esta é a verdadeira CPLP!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Imprudência pouco diplomática

Em declarações à PNN no encerramento da 2.ª Conferência do Instituto da Defesa Nacional, José Ramos-Horta terá afirmado que «As Nações Unidas vão colocar técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) no Ministério das Finanças para a gestão das finanças públicas da Guiné-Bissau.»

Vão? Senhor Representante, não estará a exorbitar das suas funções? A Guiné-Bissau é um estado soberano; não queira antecipar soluções, deverão esperar por um pedido formal de ajuda técnica por parte das autoridades. Parece simpático oferecer essa ajuda; mas as Nações Unidas não são donas do país. 

«Nas finanças públicas, ter técnicos internacionais do FMI a trabalhar com o Ministro das Finanças, as Alfândegas e o Porto de Bissau entregue ao grupo inglês "Craus", que actua em todo o mundo, vai dar resultado»... Os jornalistas da PNN são tão bons que nem sabem a grafia do grupo inglês «Crown».

(Para além de outros erros, nos quais o corrector ortográfico não os pode ajudar: como enceramento [aplicar cera] em vez de encerramento; ou fianças [garantias] em vez de finanças...) O grupo Crown, para além de ter ganho as Alfândegas de Angola, já há bastante tempo que se tentava infiltrar em Bissau...

José Eduardo dos Santos reivindica liderança da CPLP

Em audiência concedida ao Secretário Executivo da organização, defende que a «correlação de forças» se alterou, invocando os seus grandes desenvolvimentos económicos.

Talvez se deva começar pela designação. CPLA rima com MPLA. Língua angolana. Talvez fique melhor CPR$, comunidade dos países só reconhecendo petro-dólares?

A Guiné-Bissau, onde há PAZ, preocupou imediatamente a CPLP, dando origem a forte reacção, desde o primeiro dia após 12 de Abril do ano passado.

Já Moçambique, face aos sérios riscos de retorno à GUERRA civil, não oferece qualquer preocupação à organização e ao seu Secretário Executivo.

À boleia da ONU

Numa entrevista à agência espanhola EFE, um Cadogo duplamente ressabiado afirma que não voltará à Guiné se a ONU não tomar conta do país.

Depois de ter anunciado que estaria em Setembro em Bissau, agora diz que não há condições? O que mudou? Até em Lisboa falhou o seu comício, com medo!

Os políticos são perseguidos e assassinados? Lamentavelmente, não foi o caso, sendo o próprio uma prova viva. Estaria a falar do seu mandato?

Insiste que a Guiné-Bissau se transformou num narco-estado... Que hipocrisia. O que vale é que os guineenses não têm a memória curta!

Lamentou ainda o conflito interno no seu próprio Partido, afirmando que lhe teria bastado, para voltar, que todos se tivessem unido à sua volta.

E o que espera? Que alguém lhe dê ainda ouvidos?

Desinformação

Apenas para recomendar algum espírito crítico, na «rede» guineense de informações, na propagação de notícias.

Neste caso, trata-se do reforço do estigma «narco-estado», sem qualquer fundamento: uma suposta notícia dá conta da prisão de um guineense, em Dakar, vindo de Lisboa, por tráfico de droga.

Não só não consegui confirmar qualquer notícia relacionada na imprensa senegalesa (nem sequer a simples existência do título da imprensa citado), como a notícia em si não faz qualquer sentido: a cocaína vale dez vezes mais na Europa, como toda a gente sabe...

A ser verdade, o indivíduo não deve ir para a prisão, mas para o hospital psiquiátrico.

Movimento para a Paz Democracia e Desenvolvimento

Como fundador (e desenhador do logotipo), em 1998, em Lisboa, com o professor Celestino, José Ampa e Florentino Mendes Pereira, deste «Movimento», cuja designação inicial se referia aos guineenses na Diáspora, lembro que não é a primeira vez que este Movimento se endereça à CEDEAO.

Efectivamente, a 3 de Julho de 1998, este Movimento fez chegar à cimeira extraordinária sobre a Guiné-Bissau, realizada em Abuja, pelos bons ofícios do então Secretário de Estado da Cooperação português, Luís Amado, um documento intitulado «Appel au bon sens», no qual se pedia a retirada da sua força.

Após a leitura da carta aberta à CEDEAO, publicada pelo Umaru Djau, confesso que não percebi muito bem qual a intenção desta missiva. Se bem que se note a preocupação em manter um discurso equilibrado, este parece não ter qualquer objectivo óbvio, sendo um pouco chocho e convencional demais.

O texto começa logo mal, com a aplicação do termo «Majestade», o qual, em português, não se aplica a Chefes de Estados eleitos, como o são todos aqueles que vão reunir em Dakar. Poderia aplicar-se ao monarca da Arábia Saudita... eventualmente a Serifo Nhamadjo, se pensar eternizar-se em dinastia.

Afirma o documento, após desfiar um rol de desgraças, acabando pela «corrupção generalizada»: «Todas essas preocupações são favoráveis aos que usam o actual poder político, razão pela qual não têm interesse na realização imediata das eleições e consequentemente no retorno à normalidade constitucional.»

Esses males não começaram com este governo: a sua total ineficiência, mesmo considerando as condições desfavoráveis com que se deparou, deve-se ao boicote de funcionários manipulados pelo PAIGC. Mas afirmar que se congratula com os males da Guiné-Bissau, como forma de se manter no poder?

Este governo não tem qualquer poder, para além do que lhe foi conferido pelos militares; constata-se hoje o grande erro e perda de tempo que constituiu a sua formação. Não era de todo sustentável! E hoje a situação não pode durar muito mais... Tal como, aliás, o documento reconhece logo a seguir:

«Assim, o Movimento Nacional da Sociedade Civil alerta as Suas Majestades Chefes dos Estados e de Governos da CEDEAO sobre as eventuais situações de descalabro total indesejável que poderá ainda agudizar o processo de transição.» É completamente irrealista fazer das eleições um remédio miraculoso...

Atingiu-se realmente um ponto de não retorno; terão sido dois anos perdidos? A responsabilidade volta pois ao Comando Militar que assumiu o poder a 12 de Abril do ano passado. Há que salvar a face e corrigir o erro, já se perdeu tempo demais. Proponho um reordenamento das prioridades do Movimento:

Paz, Desenvolvimento....

e Democracia, por esta ordem.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Eleições: produto para exportação?

Aparentemente, a repetição de eleições parece estar a tornar-se no único produto de exportação capaz de gerar entrada de divisas. 20 milhões de dólares para realizar eleições? O orçamento proposto suscita-me algumas questões:

Recenseamento: nada se aproveita, na CNE, do ficheiro relativo ao recenseamento anterior, no qual assentaria a eleição para Presidente, entretanto interrompida? Ainda não passaram dois anos...

Se considerarmos um milhão de votantes, chegamos à quantia de $20 por voto. É um serviço caro... Julgo que, se dessem a escolher aos guineenses, entre votarem e uma nota de vinte, ninguém deve ter dúvidas do resultado desse «escrutínio».

Esta é uma crítica ao actual estado de coisas. Chamo a atenção para aqueles que acusam os (contra-)«golpistas» de defenderem acriticamente a situação. Mas mais: também proponho «soluções e alternativas».

Sairia muito mais barato (e seria criado um ficheiro durável) e inovador utilizar, por exemplo, o FaceBook: contratavam-se 1000 jovens com portátil (com ligação à internet) e uma câmara fotográfica (ou telemóvel), que criariam perfis na plataforma para todos os eleitores: cada um faria 50 perfis por dia, o que multiplicado por 20 dias úteis daria 1000 perfis por recenseador. 1000 x 1000 é igual a um milhão, o recenseamento ficaria feito num mês.

Grande parte da população vivendo em Bissau, alguns meios de transporte, um sistema simples de FB em «off», permitiria cobrir o resto do território, com o apoio das autoridades tradicionais. Simples e transparente; se calhar, bem tratadas as coisas, até o FaceBook se oferecia para patrocinar a operação (poderia fazer-se da coisa uma festa e trazer jovens voluntários de várias nacionalidades). Poderia ser a primeira «democracia» virtual.

Melhor: a votação, para não haver dúvidas, poderia ser feita de «braço no ar», ou seja, o voto, feito igualmente pela plataforma, seria público, dispensando o segredo, que pode servir para encobrir todas as fraudes. Todos poderiam assim confirmar o seu voto, a sua área, etc. Cada voto ficaria associado transparente e inequivocamente a uma face, a um rosto, a uma pessoa! O orçamento para isto (sem contar com os patrocínios)? Por menos de um milhão de dólares (que Timor até já ofereceu para isso), com boa vontade e criatividade (para além de a maior parte do dinheiro ficar na Guiné-Bissau), conseguia-se fazer a «festa».

ESCLARECIMENTO: Este artigo não significa que defenda a realização de eleições, legislativas ou presidenciais.

sábado, 19 de outubro de 2013

TVCV elegante

Desde já os parabéns à Televisão cabo-verdeana, por ter deixado de lado o assunto da Guiné-Bissau (julgo que não foi abordado, a menos que o tenha sido na terceira parte, que não se consegue visualizar).

Instruções superiores? Auto-censura? Imposição de algum dos comentadores? Simples senso comum? Qual(ais)quer que tenha(m) sido a(s) razão(ões) do «tabu», o resultado foi positivo e o conteúdo responsável.