Uma revista espanhola acaba de publicar um artigo dedicado à actual situação na Guiné-Bissau, com o título «Pequenos cenários, grandes infernos», no qual o jornalista tenta fazer um apanhado da situação. Sem grandes novidades, nota-se que Lucas Polledo fez algum trabalho de casa, mergulhando no corpo das notícias recentes sobre a Guiné-Bissau.
O resultado acaba por ser um quadro negro, amostra representativa da incompreensão generalizada quanto ao processo actualmente em curso na Guiné. Um scuro absoluto sem pinta de chiaro. Os jornalistas, sempre superficiais, lêem uns recortes, fazem umas pesquisas, para logo a seguir embarcar no «cruzeiro» da «inevitabilidade» da desgraça, do incontornável «nadir». Talvez se estivessem mais atentos, pudessem ler outros sinais, mais positivos, que falam de identidade e de esperança, de um novo começo.
«Importantes actores internacionais, incluindo países da Região, parecem contemplar na sua agenda a possibilidade de intervenção militar, modalidade intervencionista já implementada no Mali, e que ganhou força depois das acusações da DEA às chefias militares.»
Um pouco mais de espírito crítico, senhor jornalista! Parece animado de boa vontade, talvez devesse colocar-se mais umas tantas questões importantes:
quem são os instigadores desta cabala, esses «importantes actores»?
só quererão, desinteressadamente, a paz e o bem do país?
intervenção militar com que objectivo?
Realmente a Guiné-Bissau, ao contrário do Afeganistão, é um espaço geográfico que passa despercebido no globo e nos planisférios; no entanto, como poderão afiançar portugueses e senegaleses (por experiência própria), pode tornar-se um verdadeiro inferno, para ingénuos e incautos candidatos a invasores.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Má onda
Mensagem de esperança
Gostei bastante de ler o contributo de Filipe Sanhá, no site do Didinho.
Lembrei-me em especial de um dos seus contributos, há uns anos, por ocasião de uma interessante reflexão sobre modelos de desenvolvimento, na qual defendia a fixação gramatical do crioulo como factor de reforço da identidade nacional, e fui relê-lo.
Mas voltando à sua mensagem actual, quero sublinhar dois pontos que mais me alegraram, pela nota identitária e de esperança:
«A Guiné-Bissau cresceu e está a criar os seus próprios mecanismos e anticorpos para se assumir, definitivamente, como um País, que quer granjear respeito e preencher a sua cadeira no concerto das Nações.»
«Nas rádios, Jornais, bairros, bares e outros espaços de convívio, as pessoas falam abertamente sobre a problemática do País, sem medo. (...) Quem esteve e está em Bissau, apercebe-se disso de forma clara e transparente.»
Também o grito de revolta do Doka, não deixa, à sua maneira, de ser uma mensagem de esperança, ao encorpar uma firme vontade de mudança.
Nô junta mon pa kumpu nô Guiné.
domingo, 19 de maio de 2013
Mapa geológico da Guiné-Bissau
O Laboratório Nacional de Energia e Geologia, LNEG, acabou de ganhar, segundo o semanário Sol, um contrato de 30 milhões de dólares, para a digitalização do terço sul de Angola.
Mas o mais interessante é que foi o bom trabalho desenvolvido com o Mapa Geológico da Guiné-Bissau, recentemente publicado, que serviu de currículo ao LNEG, frente a outras empresas bem colocadas (em Moçambique, o trabalho foi adjudicado a uma empresa russa).
Graças ao brilhante trabalho de campo (e de secretária) de Paulo Alves e uma pequena equipa (com o apoio na Guiné da Direcção Geral de Geologia e Minas) todo o conhecimento cartográfico sobre a Guiné-Bissau, não apenas português, mas também francês e russo, foi compilado neste mapa.
Para além disso, o mapeamento inclui uma rica amostragem litostratigráfica graficamente sintetizada e acessível. Decerto que se vai tornar numa ferramenta indispensável na reflexão sobre o futuro da Guiné-Bissau, sendo a sua disponibilização especialmente oportuna.
Bravo, Paulo Alves e equipa, merecem os maiores elogios; bem haja LNEG e IICT (Instituto de Investigação Científica Tropical): o conhecimento é para partilhar! Competência, iniciativa e generosidade felizmente ainda compensam. Parabéns pelo contrato!
P.S. O Didinho, que já tinha publicado a metodologia deste projecto, decerto disponibilizará em breve esta informação, devidamente classificada, para futura referência.
A China na vanguarda da informação!
28 pequenos partidos denunciam o Memorando de Entendimento, acusando PAIGC e PRS de violar o espírito do Pacto de Transição, segundo a agência noticiosa chinesa.
Nobel lança livro
Dom Ximenes Belo acaba de lançar um livro na Porto Editora «Os Antigos Reinos de Timor-Leste», no qual se debruça sobre a história de Timor. Interessante o apelo identitário, aos descendentes das antigas casas reais, para que se interessem pela sua identidade, que investiguem e preservem a memória e a sua presença real no mundo.
sábado, 18 de maio de 2013
Esclarecimento (puxão de orelhas)
Os resultados perniciosos estão à vista. Se o ouvido não for pequeno, a horta estéril ou o ramos simples galho verde, deverão perceber que as Forças Armadas guineenses em caso algum aceitarão mais forças estrangeiras no terreno, qualquer que seja o pretexto invocado ou as cabalas engendradas com esse fim.
Conspiração (e para mais, grosseira) com vista à ocupação estrangeira? O «roteiro» ex-ante que trazem estampado já tresanda; se pretendem realmente continuar gratos no país que tão bem vos acolheu, deverão pensar seriamente em mudar de atitude.
PS O senhor Representante talvez devesse ter optado pela saída airosa que lhe ofereceu o Senhor Secretário-Geral Ban Ki Moon, de se dedicar ao aspecto «diplomático» e deixar o terreno para um segundo representante. Fosse por teimosia e/ou falta de tacto, pelos vistos preferiu entrar para o clube dos rejeitados; olhe que a fotografia pode sair-lhe borrada... De árbitro passa a jogador e ainda leva cartão amarelo? O Senhor Secretário-Geral não preferirá removê-lo do campo antes que leve o vermelho e envergonhe a Organização?
Citando Sancho Fula de Gabu
O problema principal da Guiné-Bissau é essa água turva em que se transformou o PAIGC e que tem mal-governado a nossa terra.
Esse PAI que se tornou mau, vingativo e prepotente.
Esse PAI que servindo-se da nossa ingenuidade, traiu os ideais e destruiu o País.
Esse mesmo PAI que, sob o manto de Cabral, acabará por trazer um novo ciclo de negação, atraso, oportunismo e destruição.
Sexto sentido
Apenas para apontar algumas incongruências no Memorando de Entendimento, assinado sob os auspícios da OUA, pelo «PAIGC» e o PRS, publicado pelo Rispito.
No ponto 2:
Para além da redundância desnecessária relativamente ao já enunciado na alínea d) do ponto anterior, a redacção não foi das mais felizes, em termos de soberania nacional: poderiam ter começado por «Conforme acordado...» senão parece que quem manda na Guiné é uma troika de Chefes de Estado da CEDEAO
Mas o mais grave vem no SEXTO
Respeitar «as recomendações, decisões e resoluções das organizações regionais e internacionais sobre a condução da transição»? Este ponto é claramente nulo por contradição com a própria Constituição. Mas mais grave: quem o encomendou? E qual foi a franja do PAIGC que subscreveu este lixo?
Para bom entendedor... As manobras insidiosas continuam. A este «instrumento» não deve ser reconhecida qualquer legalidade ou legitimidade. Não se percebem as razões do PRS para participar nesta farsa: assim agarrados ao PAIGC, arriscam-se a afogarem-se com esse peso morto feito de chumbo.
Do documento, pode aproveitar-se um parágrafo: o importante reconhecimento de que um desejável e duradouro entendimento político deve implicar a inclusão de outros partidos políticos, a sociedade civil, o poder tradicional e as confissões religiosas (foi pena terem-se «esquecido» de fazer alusão à Diáspora).
Que os atentados à soberania nacional venham do exterior, ainda se consegue compreender. Que venham de deputados que se dizem «representantes» da nação é inaceitável. É preciso denunciar este flagrante caso de traição à pátria, que pode vir a gerar grande instabilidade no futuro. Foi um triste tiro no pé.
A herança de Henrique
As mensagens de condolências pela morte de Henrique Pereira Rosa sucederam-se nestes últimos dias, demonstrando o reconhecimento da sociedade guineense, para com as ideias generosas de um grande homem. Chegaram mesmo da CPLP, de Cabo Verde, até Ramos Horta (a saca-rolhas, mas pronto) se juntou ao coro. Essa atitude é interessante, porque Henrique Pereira Rosa não foi eleito para o cargo de Presidente da República, que, pelos vistos, desempenhou com todo este agora reconhecido sucesso.
Graças a mais um documento importante para a história da Guiné, recentemente publicado pelo Didinho, uma mensagem do General Emílio Costa, ficámos a conhecer as circunstâncias em que ocorreu essa «eleição». A espontaneidade do texto traduz a beleza do momento. É com naturalidade que é apresentado o facto (não poderia passar a costume?) de o Presidente ser escolhido pelo CEMFA: hoje, parece não haver dúvidas que foi uma escolha feliz; pena é que o período que lhe atribuíram tenha sido curto demais.
Comparando com outros Presidentes «democraticamente» eleitos, numa escala de legitimidade, sai claramente vencedor. Como disse Henrique Pereira Rosa, depois de ficar em terceiro lugar nas eleições para a sucessão de Nino: «o problema é que as pessoas que andam na política pensam no que é que o Estado pode fazer por elas, quando deviam pensar no que é que podem fazer pela Guiné». (Gazeta de Notícias). Possa o exemplo, militante e desinteressado, que deixou em herança, valer hoje.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Presidente interpreta o sentir da nação
Esse Governo encarnaria idealmente um compromisso para com um projecto claro e transparente, executado por uma pequena equipa orgânica, disposta a trabalhar com os recursos locais, numa afirmação de boa vontade, soberania e independência. Passada uma primeira fase de diagnóstico, o período de transição teria de ser alargado a um período suficiente para que pudesse dar frutos: nunca poderá ser um Governo de curto prazo.
Parabéns, Didinho
É com a má consciência de não ter enviado a tempo o contributo solicitado, que venho por este meio dar os parabéns ao Didinho por uma década de dedicação à Guiné-Bissau, através da internet, onde dispõe de um site de referência (opinião e documentação) sobre o país.
Dos contributos enviados destaco três pontos que me chamaram especialmente a atenção:
- Concordo com a sugestão de Filomeno Pina, de que a medalha Amílcar Cabral seria uma justa e merecida prova de reconhecimento pelo trabalho já desenvolvido
- Concordo com a definição proposta por M’bana N’tchigna, quando diz que para si representa «cooperação, para que algo de positivo ocorra na Guiné».
- Concordo que seria um grande desafio, o de Matteo Candido, quando sugere que o Didinho deveria encarar seriamente a hipótese de se envolver pessoalmente numa solução política actual para a Guiné.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Angola intransigente na OUA
Em Addis Abeba, o embaixador angolano na União Africana deu hoje uma entrevista, no quadro da presidência angolana dessa Organização. Arcanjo quer dar um «golpe» (parece encarnar o arcanjo Miguel, representado por um braço alado, armado de uma espada) nos golpes... três países estão na mira: em relação a Madagáscar, Angola pretende contrariar o tribunal eleitoral local, que aprovou três candidaturas supostamente indesejadas pela Organização de Unidade Africana; no Mali, o embaixador mete os pés pelas mãos, para evitar traduzir por miúdos «está entregue aos franceses»; já quanto à Guiné-Bissau, o embaixador preferiu omitir as recriminações (pelo menos até à cimeira?). A «tolerância zero» é justificada pela vontade de «evitar precedentes». Sem querer contestar o mérito da intenção, deverá ler-se nesta omissão a subtil oferta de uma MISSANG II, camuflada de OUA?
Na minha opinião, considerando o patriotismo invocado para a constituição do Comando Militar de 12 de Abril do ano passado, e uma desejável consistência na sua actuação, as Forças Armadas deverão estar atentas a manobras subreptícias, atentatórias dos princípios constitucionais que as regem, no sentido de evitar acordos, pactos ou quaisquer outros clausulados «políticos» de «estabilização» pós-eleitorais, condicionando o agora propalado apoio externo (quem não se lembra dos milhões prometidos ao Fadul... quantos meses, anos, levaram a chegar?) à presença de forças armadas estrangeiras para substituir (com mandato «alargado») a ECOWAS, cuja função está bem delimitada. Neste contexto, considero que o modelo de transição está obsoleto e desacreditado, revelando-se agora como plenamente desadequado à prossecução dos objectivos patrióticos declaradamente encetados a 12 de Abril de 2012 e da responsabilidade do Comando.
Não há «conflito» na Guiné-Bissau (para além dos de interesses).
Ingerência estrangeira armada não é solução.

