A densa desconfiança popular, fruto das sucessivas inventonas que o desnaturado usurpador engendrou, abafou inicialmente o profundo alívio que hoje se vive em Bissau, impedindo explosões espontâneas de alegria. E talvez seja melhor assim, não só para começar a expiar a meia-dúzia de anos de afronta à Nação de Cabral (pois somos todos culpados, em maior ou menor medida, de não termos conseguido impedir as barbaridades cometidas) como para evitar procurar outros culpados para além da reencarnação de Nino (cumprindo assim um terceiro mandato). Mesmo com o fígado retalhado, continua a perseguir-nos, pois ainda não foi devidamente realizado o processo do assassinato de Cabral e de Titina Silá.
Hoje está mais que provado que foi Nino que mandou matar ambos, acusando os tugas e transformando-os em mártires. Só não vê quem não quer. Dois coelhos de uma cajadada, abusando dos bodes expiatórios ideais para o materializar, despachando-os em seguida (incluindo o primo). Foi esse estilo de autoritarismo, maquiavélico puro, que herdou a ridícula reencarnação. Enquanto todo o povo guineense não assumir que não foi a PIDE (o tuga implicado era fuzileiro) mas sim Nino, manipulando o silêncio colectivo (naquele malfadado dia todos - excepto talvez as crianças da escola-piloto e o médico português - sabiam que Cabral seria executado e não veria a madrugada seguinte), no ka pudi kumpu terra.
Foi o patriotismo das Forças Armadas que acabou por resolver o berbicacho, ao abrigo do seu dever de honra constitucionalmente consubstanciado no número dois do artigo vinte. O selo do patriota General Injai (que, perante a actual inflacção, vai ter dificuldade em expor as dezenas de estrelas a que tem direito), tal como em 2010, 2012 e 2020, foi e continua decisivo e inapelável. Falta a promoção democrática dos merecedores, um triunvirato de vivos (Melcíades Fernandes, Daba Naualna e Salvador Tchongó) e um triunvirato de mártires (Daba Naualna, Salvador Tchongó e Armando Namontche), tornando-se mais que uma simples libertação, uma autêntica reHabilitação, uma apoteose moral inesquecível.
O acto servirá de catarse colectiva, reconciliando a Nação e lavando a afronta de seis anos de desmando e de demolição sistemática do Estado (que de Direito já tinha pouco). Traficando com tudo e comprando violência, numa aposta avassaladora, há que reconhecer que foi altamente eficaz. Com uma inegável eficiência financeira, dividiu famílias, impôs o medo, submeteu tudo e todos. Um autêntico paradigma dos perigos que corre a suposta, pretensa, erodida democracia que os brancos continuam a querer impingir aos pretos como paliativo e panaceia para todos seus males, apesar de já toda a gente ter muito bem percebido que não é nada assim, na realidade, antes pelo contrário. Se tem de haver ditadura, seja de qualidade.
O que o mau do Mao mais temia era o demónio da desmaoização. A des-$i$$okização não se justifica sequer, pois iria sair caro arrancar o mau alcatrão pago a peso de ouro, que agora liga o Palácio a Pidjiguiti, só para fazer brita para tapar buraco onde mais passam os toca-toca. Resume-se a não atender os telefonemas dos ranhosos dos agentes de Macron, que tresandam a desclassificados e estão bem marcados (pelos próprios serviços, a oposição intestina e até burocrática está a crescer exponencialmente em Paris). Estão obviamente cancelados todos os protocolos adicionais celebrados pelo fundinho e não ratificados pela ANP (único acto de relevo de resistência). E, já agora, Faye que vá catar-se.
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