«Estamos num período muito delicado, o momento que atravessamos é como se fosse de uma mulher grávida, prestes a dar luz: precisa de ser acarinhada não só pelo marido, como por toda a vizinhança.»
in Doka
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Situação prenhe
Cadelas apressadas...
... dão à luz cachorros cegos.
Estranha-se, da parte dos partidos políticos com representação parlamentar, a pressa na constituição e a vontade de presença num Governo de reduzido âmbito temporal, sem que, no entanto, promovam a reflexão relativamente às perspectivas e expectativas quanto a esse governo, ou a discussão de como implementar um «programa» mínimo, ou as previsíveis dificuldades de articulação entre elementos de origens tão díspares...
Esses partidos parecem dispostos apenas a regatear a sua «representatividade» até à exaustão. De resto são só «facilidades». Soa a desgoverno. Haja alguém que se preocupe com a consistência e sustentabilidade de curto prazo.
Vira o disco e toca o mesmo
O mais recente título da Voz da América relativo à Guiné-Bissau afixa o alarmista título de «Crise instala-se de novo no país», consistindo numa entrevista a Rui Landim. Não se percebe como, estando tudo «na mesma, como a lesma», é possível afirmar que a crise «voltou de novo», sobretudo baseados num discurso do entrevistado decalcado de outra entrevista à Voz de Angola, com quase dois meses! Qual é a novidade?
O pseudo-analista não tem publicado muitas análises, o seu trabalho ultimamente tem-se reduzido a repetir a mesma cassete, cuja único conteúdo é «entregar o país à ONU»: atitude não só anti-constitucional, como anti-patriótica. Conteúdo esse já ultrapassado há muito; essa possibilidade só existiu mesmo na cabeça de algumas mentes toldadas pela frustração em relação à situação; neste momento, a «ideia» representa pouco mais que uma chalaça de mau gosto.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Confissões de um ex-agente da DEA
Fernando Simões, um ex-agente da CIA e da DEA, escandalizado com as hipócritas declarações de Mário Soares, acusando o PSD de estar a «atraiçoar a herança de Sá Carneiro», decidiu-se agora, passados os 25 anos contratuais da cláusula de «silêncio» a que estava obrigado, a publicar, no Scribd, um documento que já tinha escrito há dois anos, com as suas confissões. Transcreve-se apenas a parte do resumo (a versão integral pode ser adquirida) relativo à DEA, onde esclarece o «âmbito» de actuação e os métodos empregues por essa agência norte-americana.
A minha colaboração com a DEA, iniciou-se em 1981, através de Richard Lee Armitage. Em 1980, Richard Armitage viria também a estar comigo e com o Henry Kissinger em Paris, Richard Lee Armitage era membro do CFR (Council for Foreign Affairs and Relations) e da Organização e Cooperação para a Segurança da Europa (OSCE), criada pela CIA, Richard Armitage era também membro, na altura, do Grupo Carlyle, do qual o CEO era Frank Carlucci. O Grupo Carlyle dedica-se à construção civil, imobiliário e é um dos maiores grupos de tráfico de armas no Mundo, junto com o Grupo Haliburton, chefiado por Richard "Dick" Cheney. O Grupo Carlyle pertence a vários investidores privados dos EUA, por regra do Partido Republicano. Este grupo promove nomeadamente vendas de armas, petróleo e cimento para países como o Iraque, Afeganistão e agora para os países da primavera árabe. A lavagem do dinheiro do tráfico de armas e da droga, era feita, na altura, pelo Banco BCCI, ligado à CIA e à NSA - National Security Agency. O BCCI foi fundado em 1972 e fechado no princípio dos anos 90, devido aos diversos escândalos em que esteve envolvido. Oliver North pertencia ao Conselho Nacional de Segurança, às ordens de William Walker, ex-embaixador dos EUA em El Salvador. Oliver North seguiu e segue sempre as ordens da CIA, dependente de William Casey. Oliver North está hoje retirado da CIA, e é CEO de vários grupos privados americanos, tal como Frank Carlucci. Da DEA conheci Celerino Castilho, Mike Levine, Anabelle Grimm e Brad Ayers, tendo trabalhado para a DEA entre 1975 até 1989. Da CIA trabalhei também com Tosh Plumbey, Ralph Megehee - tenente coronel da NSA, actualmente reformado. Da CIA trabalhei ainda com Bo Gritz e Tatum. Estes dois agentes tinham a sua base de operações em El Salvador (onde eu também estive durante os anos 80, durante o tráfico Irão - Contras), desenvolvendo nomeadamente actividades com tráfico de armas. Uma das suas operações consistiu no transporte de armas dos EUA para El-Salvador, que eram depois transportadas para o Irão e a Nicarágua. Os aviões, normalmente panamianos e colombianos regressavam depois para os EUA com droga, nomeadamente cocaína, proveniente de países como a Colômbia, Bolívia e El Salvador, que serviam para financiar a compra de armas. Esta actividade desenvolveu-se essencialmente desde os finais dos anos 70 até 1988. A cocaína vinha nomeadamente da Ilha Normans Cay, nas Bahamas, de que era proprietário Carlos Lheder Rivas. Carlos Rivas era um dos chefes do Cartel de Medellin, trabalhando para este cartel e para ele próprio. Carlos Rivas era, neste contexto um personagem importante, sendo o braço direito de Roberto Vesco, que trabalhava para a CIA e para a NSA. Roberto Vesco era proprietário de Bancos nas Bahamas, nomeadamente o Columbus Trust. Carlos Rivas fazia toda a logística de Roberto Vesco e forneciam armas a troco de cocaína, nomeadamente ao movimento de guerrilha Colombiano M19. Roberto Vesco está hoje refugiado em Cuba. O dinheiro das operações de armas e de droga são lavadas no Banco BCCI e noutros bancos, com o nome de código "Amadeus". Há no entanto contas activas nas Bahamas e em Norman's Cay, nas Ilhas Jersey, que gerem contas bancárias, nomeadamente para o tráfico de armas para os “Contras” da Nicarágua, e para o Irão. Como acima referi, muito desse dinheiro foi para bancos americanos e franceses, o que em parte explicará porquê é que Manuel Noriega foi condenado a 60 anos de prisão, tendo primeiro estado preso nos EUA, depois em França, e actualmente no Panamá. Foi preso porque era conveniente que estivesse calado, não referindo nomeadamente que partilhava com a CIA o dinheiro proveniente da venda de armas e da venda de drogas. Noriega movimentava contas bancárias em mais de 120 bancos, com conhecimento da CIA. Noriega fazia também parte da operação Black Eagle, dedicada ao tráfico de armas e de droga, que em 1982 se transformou numa empresa chamada Enterprise, com a colaboração de Oliver North e de Donald Gregg da CIA. Em face do grau de informações e de conhecimento que tinha, é fácil de perceber porque se verificou o derrube e a prisão de Noriega. Devo dizer que estou pessoalmente admirado que não o tenham até agora “suicidado", pois deve ter muitos documentos ainda guardados. Noriega tinha a intenção de contar tudo o que sabia sobre este tráfico, nomeadamente sobre os serviços prestados à CIA e a Bush Pai, tendo por isso sido preso. Washington e a CIA são assim veículos importantes do tráfico de armas e de droga, utilizando nomeadamente os pontos de apoio de South Flórida e do Panamá. No início dos anos 80 conheci um traficante do cartel de Cali, de nome Ramon Milian Rodriguez, que depois mais tarde perante uma comissão do Senado Americano, falou do tráfico de armas e de droga, do branqueamento de dinheiro, bem como das cumplicidades de Oliver North neste tráfico às ordens de Bush Pai e do Donald Gregg. Muito do dinheiro gerado nessas vendas foi para bancos americanos e franceses. Este dinheiro servia também para compras de propriedades imobiliárias. Por estar ligado a estas operações, Noriega foi preso pelos EUA. Foi numa operação de droga que realizei na Colômbia e nas Bahamas, em 1984, onde se deu a prisão de Carlos Lheder Rivas, do Cartel de Medellin, em que eu não concordei com os agentes da DEA da estação de Miami, pois eles queriam ficar com 10 milhões de dólares e com o avião "lear-jet" provenientes do tráfico de droga. Não concordando, participei desses agentes ao chefe da estação da DEA de Miami. Este chefe mandou-lhes então levantar um inquérito, tendo sido presos pela própria DEA. A partir de aí a minha vida tornou-se num verdadeiro inferno, nomeadamente com a realização de armadilhas, e detenções, tendo acabado por sair da CIA em 1989, a conselho de Frank Carlucci. O principal culpado da minha saida da CIA e da DEA foi John C. Lawn, director da estação da DEA e amigo de Noriega e de outros traficantes. John Lawn encobriu, ou tentou encobrir, todos os agentes da DEA que denunciei aquando da prisão de Carlos Rivas. Após a minha saida da CIA, Frank Carlucci continuou contudo a ajudar-me com dinheiro, com conselhos e com apoio logístico, sempre que eu precisei até 1994.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
on-line!
Quando já todos estavam preocupados com o «desaparecimento» dos intelectuais balantas, passadas umas horas da sua indisponibilidade, eis que dão sinal de vida. Chegou a temer-se o pior, denúncias, censura, etc. Mas não, foi apenas um pequeno problema técnico, já tudo voltou à normalidade.
Perda de confiança no PM
Nesta notícia da PNN, escamoteou-se um elemento essencial para a análise da situação: que o Primeiro-Ministro de Transição foi indicado pelo próprio PRS, partido no qual milita Rui Barros. Ou militava? Uma vez indigitados para certas funções, os elementos dos partidos não deveriam ser «desligados» da disciplina partidária, para poderem atender em primeira mão aos superiores interesses do Estado, e não ficarem reféns da «politiquice» conjuntural?
Calendário de transição
Face à auto-exclusão dos maiores partidos em relação ao processo, depois de terem assinado e validado o Pacto de Transição, envolvendo pequenos partidos e sociedade civil, parece perfilar-se a hipótese de um governo de iniciativa presidencial de raiz, atendendo à patente inclinação do presidente para uma composição em termos exclusivamente técnicos.
As virtudes esperadas em relação a essa opção não cabem em cinco meses. Um bom «tecnocrata» precisa de algum tempo para se inteirar da situação, para gizar um plano, para recensear e «apalpar» os recursos disponíveis, para inventar novos recursos, para mobilizar as pessoas para os objectivos definidos. Diz o ditado que Roma e Pavia não se fizeram num dia.
Um «bom» tecnocrata não aceita um desafio limitado e com probabilidades nulas de sucesso. Se, mais que uma saída conjuntural para o actual impasse, se procuram realmente soluções duradouras, aproveitando decididamente o actual momento que para esse efeito pode revelar-se propício, há que encontrar novas fórmulas de decisão nos instrumentos em vigor.
Admitida a sobreposição à constituição do Pacto de Transição, não se compreende que os dois maiores partidos continuem a insistir em «puxar a brasa à sua sardinha». Tratando-se, como insistentemente propagam, de um pretenso governo «inclusivo», torna-se suspeita a sua atitude. Mas acaba por ser útil, evidenciando a necessidade de uma clarificação.
Os dois maiores partidos, agora unidos numa frente comum contra a vontade popular, pretendem bloquear as reformas que há muito a Guiné necessita desesperadamente, pois uma tal decisão afecta os interesses e expectativas interesseiras e «culturais» dos seus filiados, utilizando para isso uma maioria totalitária na ANP, baseada num mandato que já expirou há muito.
Há que quebrar esse vínculo dissonante e corruptor, abstraindo o Governo da influência decisória dos partidos, noutras esferas que não a simples fiscalização. Um Pacto de Regime poderia consistir num contrato desse género: os Partidos seriam reservatórios de «mão-de-obra» política, mas a escolha seria efectuada autónoma e independentemente pelos técnicos do Governo.
O prazo estipulado para um roteiro de transição sério, deveria incluir uma fase de diagnóstico, seguida de outra de projecto, finalizando numa implementação continuada e consistente. Um governo que não esteja dependente dos Partidos, com legitimidade técnica, sob a protecção de umas Forças Armadas garantindo a defesa da soberania nacional, representaria uma garantia de estabilidade.
Caso a ANP não concorde com a solução avançada pelo Presidente, no sentido de resolver a actual situação de «calamidade política» (que, segundo a alínea primeira do artigo 31 da Constituição, poderá até ditar a sua dissolução), poderá sempre, utilizando as suas prerrogativas constitucionais, sujeitar a referendo a proposta em causa, apelando à sua rejeição nas urnas.
O indesejado
Com uma certa dose de fina ironia, Filomeno Pina acaba de traçar o perfil do «candidato natural» (CN) às próximas eleições presidenciais.
Numa análise de extrema sensibilidade psicológica, subtilmente detalhada, vem chamar a atenção para um ponto importante: o esquecimento a que parece «votado» o CN, como actor no palco ao qual pretendia subir. Simples apagamento ou desaparecimento puro e simples da cena?
Com Filomeno como psicólogo, quase que é possível sentir a dor, a frustração a arder no estômago do psicopata, face à erosão da sua «construção». Aparentemente incapaz de um gesto de grandeza, adjuvado por elementar bom senso, que seria desistir da sua ficção...
O especialista clínico põe o dedo na ferida, lembra ao nevrótico e impaciente paciente a realidade, da qual parece estar cada vez mais alheado, mas pressente que o caso é do foro patológico, tendendo a agravar-se com o tempo e com o afastamento em relação à realidade.
Excluído de qualquer cenário, o amor próprio do doente arrisca-se a ceder; a sua personalidade a abrir falência. A cair no fundo da sua auto-estima. De «bestial» a besta. Depois de se imaginar vencedor e aclamado, acaba indesejado e pior: esquecido!
Parece natural que ninguém sinta a falta do CN. No Partido do qual continua presidente, tornou-se um peso morto, bloqueando todas as saídas, para além da sua própria. Que poderia hoje oferecer aos guineenses, com todo o passivo de favores que acumulou na tentativa de asfixiar o país?
Compare-se com a atitude digna de Luís Cabral, que, arredado do poder, nunca tentou prejudicar o seu país, nem sequer se exilou em Cabo Verde. «Retornados» na política guineense, dão mau resultado, como ficou suficientemente (senão demasiado) claro com Nino Vieira...
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Aliança post mortem
O PRS acaba de se juntar ao PAIGC no «Titanic» da reposição da ordem constitucional, através de uma nota de imprensa. Esta «aliança» forçada, para tentar conter a tendência que tem vindo a ganhar força e que hoje parece inevitável, apenas demonstra como os dirigentes desses partidos se sentem fragilizados (evitei dizer «culpados»).
O PRS, numa incompreensível opção estratégica, em vez de tentar «cavalgar» a onda, prefere assinar a sua certidão de óbito. Clarificação importante, mas já pouco relevante para travar aquele que parece o inelutável curso dos acontecimentos.
Vox populi
Num espontâneo e interessante exercício de cidadania activa, um grupo informal de 17 jovens, depois de organizar uma discussão em torno da actual situação do país, decidiu-se a avançar com um «manifesto» resumindo a conclusão a que chegaram. A iniciativa consiste no apelo a que ninguém vote «Nim PAIGC, nim PRS».
Feito o balanço, são «40 anos de desgovernação, que se resumem em atraso, intimidação, crimes, má imagem da Guiné no exterior, desestruturação social e futuro comprometido». Salvaguardando que não estão contra ninguém em particular, pois também existem pessoas bem intencionadas nesses partidos.
Estão sim contra toda a cultura de irresponsabilidade que conduziu à infeliz situação actual, os seus modi operandi e a total incapacidade demonstrada. «É preciso entregar o país a pessoas capazes», cuja legitimidade não lhes advenha de obrigações partidárias, mas de um compromisso claro com a Guiné.
Levando até às últimas consequências a ideia: Nem PAIGC, nem PRS, nem eleições.
Desde já, com conhecimento aos interessados por email, coloco este blog à vossa disposição, no sentido da divulgação de futuros comunicados no âmbito da vossa feliz e oportuna iniciativa, traduzindo o sentimento que se vive, em crescendo, no seio da população da Guiné-Bissau.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Regime angolano cai no ridículo
O regime autocrático de José Eduardo dos Santos mantém reféns as mentes dos angolanos, conduzindo a situações que, se não fossem dramáticas, seriam risíveis. Um manifestante, detido numa marcha pacífica, desaparecido durante dois dias e sem acesso aos seus companheiros e advogados, aparece agora, num comunicado oficial, como acusado de «tentativa de homicídio» na pessoa do chefe de uma esquadra!
Desde armas colocadas na mala do carro de um general para o acusar de porte de armas, a cocaína na mala de um músico em viagem para o incriminar no destino, os recursos empregues parecem não recuar, nem perante recatos de maquiavelismo, nem perante um elementar senso do ridículo.
Ver notícia do Público.