quinta-feira, 30 de maio de 2013

Singular incongruência

Num comunicado do PAIGC, há pouco divulgado pela Lusa, o partido pretende lavar as mãos relativamente aquilo que designam por «impasse político» e pressionar o Presidente da República. Transcrevo o parágrafo relevante

«A base e a origem das propostas de formação de Governo são os partidos políticos e o primeiro-ministro. Os responsáveis da transição devem colocar os interesses da Nação e dos guineenses acima dos seus interesses e compromissos pessoais».

O PAIGC a moralizar? Há uma dupla incongruência. A base, a iniciativa e a origem da proposta de formação de governo é (no singular) o Presidente que pode demitir o Primeiro-Ministro e nomear outro. Por outro lado, se estão a falar do Presidente (no singular), não se percebe porque falam no plural («os responsáveis da transição»).

Ex-militante desse Partido, sua Excelência o Presidente da República, tem mantido uma grande dignidade em toda esta situação (por enquanto, não vejo transição). Os ataques à sua pessoa, em nada podem ajudar ao processo em curso. Quem não tem dado mostras de saber estimar os «interesses da Nação» são os elementos desse Partido, que parecem estar a bloquear uma solução política que vai contra os seus interesses pessoais.

Resposta do embaixador americano na UA

Quando questionado sobre a abordagem «militarista» dos Estados Unidos aos problemas africanos:

«The U.S policy towards Africa has never been a militarized policy. We never colonized any African nation. We never controlled a single country in Africa, we never sought to control a single country in the continent.»

Em extensa entrevista concedida em inglês, em Addis Abeba, ao The Ethiopian Herald.

Gastronomia

A cozinha guineense afirma-se no panorama internacional.

«Muito embora tenhamos que recorrer às ajudas internacionais, o cozinhado far-se-á no caldeirão dos guineenses e de forma soberana, porque quem o irá servir (e comer) - seja quente ou frio - somos nós e mais ninguém! Por isso damos prioridade à estabilidade política na nossa terra, em detrimento das eleições»

Apenas para felicitar o Nababu Nadjenal por mais um relevante contributo para a análise da actual situação na Guiné, publicado na nova página do Doka. Aproveito para transcrever alguns trechos que me parecem mais relevantes, mas começo por criticar um ponto em particular, que me pareceu dissonante:

Ter-se-á mesmo de recorrer a essas ajudas? Não será um mau princípio? Não será colocar o ouro nas mãos dos bandidos? Entregar o rebanho ao lobo? As afirmações soberanas precisam de se alicerçar na plena independência, não podem estar reféns de mitos da dependência impostos do exterior.

A democracia tem muitas formas, e a melhor forma de perverter o seu espírito é esse escrutínio de que fala Nababu. Não esquecer, na Guiné-Bissau (tal como em Portugal, aliás), a metade silenciosa do eleitorado, cuja abstenção talvez seja uma opção consciente e «activa».

«A comunidade internacional não tem ideias para África, tem uma cassete: as eleições, como se isso fosse o remédio para todos os males. (...) Para a comunidade internacional, a democracia redunda na realização do escrutínio, como se isso fosse a única forma apropriada, em cada etapa, de aclarar a situação política. Foi-nos incutida a noção eleitoral que distingue, de um lado, os vitoriosos, aos quais tacitamente é outorgada carta-branca (até para matar se for preciso) e, por outro lado, os derrotados, que devem ser silenciados e escorraçados. Ou seja, as legislaturas transformaram-se em transições sucessivas para o monopartidarismo, no seu sentido puro e duro»

Um monopartidarismo cinzento, apenas preocupado com o seu umbigo e a sua manutenção no poder, a todo o custo (que acaba sempre por ser o do desenvolvimento). Essa «democracia» autista e, em muitos casos, «musculada», não serve os interesses dos povos africanos nem a sua aspiração ao desenvolvimento.

«Estamos a pensar no fenómeno “banho” muito em voga nos nossos países, organizado pelo partido no poder, uma forma hipócrita e sarcástica de abertura ao multipartidarismo (...) As cartas estão viciadas, porque baralham e voltam a dar as mesmas cartas!»

Não é preciso um governo «inclusivo». É necessária uma governação «inclusiva», que oiça os principais interessados, escute os actores, medeie e modele um compromisso entre a modernidade e uma sociedade exemplarmente diversa, tolerante e construtiva como é a guineense, fazendo-a brilhar no plano mundial.

P.S. Salazar, a propósito de democracia, dizia: «Se quiseres que continue tudo na mesma, nomeia uma comissão; se quiseres deixar obra, nomeia um responsável.» Atingidos certos consensos nacionais, torna-se mais prático plasmá-los legal e legitimamente através de formas mais directas de democracia.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Jagudi na sonda si limária

Face à desintegração da CPLP, à sua manifesta incapacidade para desempenhar um papel positivo e mobilizador no desenvolvimento dos países de expressão portuguesa, os Estados Unidos parecem resolvidos a ficar com uma parte do bolo: a que lhes é mais chegada.

Ver recente artigo publicado por Nikolas Kozloff no Huffingtonpost.

África decerto dispensa importar uma «guerra religiosa», trazida no rasto de chumbo e cinzas dos fantasmas dos americanos. Chocou-me o comentário ponderando como factor positivo [para a instalação de uma base militar] a «ausência» do Islão. «São Tomé and Príncipe could be a promising site, the Americans believe, since the islands are heavily Catholic and have no history of Islamic militancy.»

Os Estados Unidos parecem actuar tal como um elefante numa loja de porcelana. Por este andar, brevemente haverá muitos cacos para apanhar.

Descolonização dos Açores

Os Estados Unidos desinteressaram-se da manutenção do grande porta-aviões que mantinham no Atlântico Norte. A Europa, constituída como bloco, deixou de ser um foco de atenções, o interesse deslocou-se para Sul, num contexto mais global e actual de neo-imperialismo, com objectivos já não tanto estritamente militares, como era o caso durante a guerra fria, mas agora de garantir o acesso privilegiado a fontes de energia e matérias primas, sobretudo fazendo face à intensa actividade de interesses chineses na zona.

Preparam-se agora para colonizar os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, transformando-os em bases militares avançadas dos seus interesses económicos. Qual espada de Damocles suspensa sobre o Continente, toda a África Ocidental (em sentido lato - do Cabo a Gibraltar) ao alcance do punho. Os americanos não devem iludir-se: o problema de África, bem exemplificado pelo caso da Somália, é precisamente o de encararem apenas soluções militares, sem lidar com as causas profundas.

Se a intervenção da França no Mali irritou a União Africana, que dizer da anexação à América continental da orla costeira ocidental? Acabou-se a deriva: é a união dos continentes!

Caricaturas UA

Com os devidos créditos ao excelente site alemão DW, pela recolha, três cartoons espectaculares sobre os desafios da UA...

Haswel Kunyunye, do Malawi



  
Victor Ndula, do Quénia
John Swanepoel e John Curtis, da África do Sul

São Tomé & Pilatos

Num show off de contabilidade duvidosa, as autoridades são tomenses promoveram uma «queima» de droga que pretendia demonstrar o seu empenhamento na luta contra o tráfico, como noticia hoje o site alemão DW, num artigo da autoria de Ramusel Graça.

No entanto, salvo erro de transcrição do jornalista, é difícil perceber como, com 11Kg de haxixe e 2,4 de liamba, se consegue perfazer o valor estimado de meio milhão de dólares: em Portugal, por exemplo, as quantidades apontadas dificilmente ultrapassariam os cinquenta mil dólares e a preço de retalho.

Para mais, tratando-se de drogas «leves», em processo de descriminalização em vários países (inclusive em alguns estados dos Estados Unidos), a encenação revela-se um pouco forçada, para não dizer mesmo, de mau gosto, no sério contexto da luta anti-droga transatlântica.

Pouco mais de três meses antes de 12 de Março de 2012, o mesmo site publicava uma notícia afirmando que estudos recentes evidenciavam o quanto o Brasil se tornou numa grande porta de saída de droga da América Latina para outras partes do mundo, com destaque para a África, com Angola e a Guiné-Bissau no centro do tráfico da droga

«O Brasil se tornou o principal ponto de partida da cocaína enviada para África. O delegado da Polícia Federal cita Angola e Guiné-Bissau, para além da Nigéria e do Senegal, como parte das placas giratórias da droga, destacando o papel de passageiros africanos que fazem o transporte da droga. Segundo o criminólogo, Genilson Zeferino, muitas vezes, envolvem jovens, tanto por aqui, como no continente africano: “No caso de África, sem uma política que dê à juventude condições de estudo, de trabalho, o tráfico de drogas aparece como possibilidade para ganhar dinheiro. É muito comum o caso de jovens que são envolvidos como “mulas”, o que não quer necessariamente dizer que são viciados”.»

Reparámos, no Progresso Nacional, que ainda ontem, o embaixador da paz da CEDEAO apelou aos governos e instituições da Organização para darem mais poder aos jovens, em prol da paz, estabilidade e desenvolvimento. Na sociedade africana, ainda bastante tradicional, o lugar dos mais velhos, com a sua experiência e sabedoria, deve ser acautelado; mas o papel dos mais novos, que poderão dar um impulso vital para o desenvolvimento, não deve ser descurado!

Preparem-se para intervir por todo o lado

A AFP, agência noticiosa francesa, acaba de publicar um artigo do seu correspondente em Nairobi, com vários contributos, um deles o de Musambayi Katumanga, professor de Ciências Políticas na Universidade de Nairobi:

«Si vous voulez créer une force de réaction rapide, préparez-vous à intervenir partout, car la plupart des Etats africains ne sont pas viables, même si leurs dirigeants refusent de le reconnaître. Ils sont dans la même situation que le Mali, c’est juste une question de temps.

L’insécurité africaine a commencé dés la Conférence de Berlin, quand les puissances coloniales européennes se sont partagé le continent, traçant des frontières niant l’histoire.»

Uma decisão histórica para a UA seria abolir o «tabu» que pesa sobre esse facto!

terça-feira, 28 de maio de 2013

Mensagem de esperança II

Thomas Friedman, um jornalista consciencioso, sentiu-se atraído pela Guiné-Bissau, por todo o «barulho» em torno deste pequeno país; e não se quis ficar pela recolha de informações (talvez tenha sentido o contraditório), viajou até Bissau há um mês, para ver com os seus próprios olhos: e o resultado foi uma total surpresa, que partilha com os seus leitores.

Critica os media, por não estarem atentos ao que se passa no terreno, «papando», sem espírito crítico, aquilo que lhes querem vender. Afirma que, passadas quatro décadas de ditaduras, violências e guerras, se abriu no último ano uma improvável e quase «estranha» janela de paz e estabilidade, que se sente na rua. Só depois então se pronuncia.

E a sua opinião vai precisamente no sentido contrário ao da «carneirada». Pergunta-se «Que deveríamos fazer [comunidade internacional] quanto ao aparente caos na Guiné-Bissau?» e responde: «Bem, talvez seja mais fácil começar por aquilo que não deveríamos fazer. (...) Temos de ter cuidado com a tessitura dos ideais de democracia que pretendemos exportar.»

E continua: a liberdade que se sente em Bissau representa uma grande e histórica oportunidade; seria injusto trair o povo guineense, retirando-lhe a confiança que parece manifestar nas suas hipóteses de desenvolvimento, fazendo-o duvidar das suas próprias capacidades. Depois elogia o espírito empreendedor dos guineenses...

Num oportuno recado, iluminado por uma imagem, diz que a Guiné-Bissau se encontra perante uma descida pejada de obstáculos, que deverá percorrer «muito lentamente». E talvez daqui a uns anos a Guiné seja um país completamente diferente, que compara (no título), imagine-se, com o Japão! Utopia? Talvez. «As pessoas em Bissau ainda não deixaram de sonhar».

Ver New York Times.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Estranheza

Como sou apaixonado por balística talvez seja suspeito.

Mas acho estranho que um homem como Osvaldo, esteja sub-aproveitado em Cabo Verde. Mesmo considerando a sua responsabilidade política (no verdadeiro sentido do termo, que não se resume a conotações «democráticas»), como combatente da liberdade das pátrias (é relevante que não use o singular), o facto é que existe uma manifesta dissonância.

Uma pesquisa utilizando o seu nome completo, retorna essencialmente (a 90%) fotos da entrega dos prisioneiros portugueses à Cruz Vermelha (numa delegação de duas mulheres e um homem - isto há mais de quatro décadas - sendo uma delas Titina Silá), o seu livro autobiográfico (precoce) «Nos tempos da minha infância», o facto de ter sido Ministro da Economia... e pouco mais.

Estive fisicamente na sua presença (em público e depois num pequeno particular). Se é capaz de hipocrisia (por exemplo quando afirmou que Coutinho Lima estava cercado e não tinha alternativas), não deixa de ser um homens de causas. Para além do grande respeito e amor que indubitavelmente sentia por Amílcar Cabral (o que o prejudicou, claro, pelo resto da sua carreira), é um verdadeiro patriota (no singular).

Ainda nos últimos dias, estivemos em campos opostos (o Senhor Comandante que me perdoe pela familiaridade recém-adquirida, não a utilizaria se não tivesse ficado agradavelmente surpreendido), quando vem defender a entrada da Guiné Equatorial na CPLP (diga-se em abono da verdade, no único sentido possível, o futuro) quando eu, pela minha parte, escrevi um artigo condenando-o.

Talvez tenha sido a presença do Julião, mas (e há coisas que não podem passar através das simples palavras escritas, é preciso ouvir - e estar a ver - quem as diz) fiquei com a nítida sensação de que o Senhor Comandante sabe algo sobre a morte de Cabral, que não só não é do domínio público, como lhe pesa e gostaria de partilhar, no espírito da queda dos tabus da mesa redonda de quinta.

Quando morreu Nino, publiquei uma notícia (que hoje considero parva) aqui neste blog provocatório. Eram uma data de coisas juntas. Um elogio ao Aly, como bom jornalista (tal como os bons avançados, no futebol), no sítio certo, no momento certo. Mas fartei-me de pensar nesse tipo de apresentação (choque), sobretudo porque, infelizmente, foi Mário Soares que deu o mote (e não gosto dele).

Claro que o meu maior problema foi que alguém julgasse que, uma vez na vida, concordava (ou, pelo menos estava em sintonia) com esse medíocre e responsável maior (a quem, para além - e mais que - dos afilhados, imputo grandes responsabilidades pela actual situação de Portugal); mas não consegui escamotear a minha alegria (não, não é apenas falta de tristeza) pela morte de Nino, que já esperava.

Apenas lamento que Manel Mina não tenha feito o mesmo grau de esforço que fez para salvar Nino (fiquei mesmo irritado com ele nesse dia 7 - não pela cartilha revolucionária herdada da vila de Ekaterine, porque sou estritamente franciscano e respeitador da vida - mas pelo lado prático, pela verdadeira «razão de estado» que legitima um mal menor para evitar um maior) para salvar um homem que respeitava ainda mais.

Mas os tempos eram outros, talvez não fosse mesmo possível. Mas quando se trata da razão, da verdade, julgo que estas se devem sobrepor a outros considerandos, mesmo com os riscos associados. Lembre-se o destino do Comodoro Lamine Sanhá, mais que herói da verticalidade, um mártir que talvez só não seja reconhecido porque o seu islamismo é inconveniente e inoportuno para a maior parte dos actores.

Todo este desabafo, apenas para lembrar as declarações públicas de Osvaldo, por essa altura, quando lhe pediram para se pronunciar sobre a ausência de qualquer chefe de estado no funeral de Nino Vieira: «Teve a sorte que mereceu. Era um homem sinistro». Na ideia do senhor Comandante, o komandante Kabi terá tido alguma coisa a ver com o assassinato de Amílcar Cabral?

A minha opinião sobre isso, já a dei, numa pequena biografia que publiquei aqui, por isso estou à vontade. Mas, da minha humilde pena, é considerada pura especulação (ou até loucura). Já de alguém que pressentiu o atentado... passadas quatro décadas e toda a amargura e recalcamento que daí possam advir, teria outro valor. A história talvez mereça que aclare esses momentos sombrios...

Perdoem a ingenuidade - e se souberem mais do que eu, chamem-me a atenção - mas julgo: que é óbvio que o carácter utópico de Cabral estava a «prejudicar» a ofensiva que veio a ter o seu nome, mas também que essa «deriva» emocional (talvez motivada pelo íntimo desejo de não humilhar Portugal) não parece suficiente para que a sua morte tenha sido decidida a leste.

Dever de ingerência ou maquiavelismo?

Grande novidade na UA (quero dizer, grande vitória diplomática de Angola): os líderes africanos reunidos na XXI Cimeira da UA, decidiram hoje de manhã o estabelecimento de uma força de intervenção rápida para acudir a situações de emergência. Veja notícia da Reuters.

Se a pressa revelada e o imediatismo da decisão, ao fim de 50 anos de actividade da Organização, são de si suspeitos; mais grave é o voluntarismo na constituição dessa força, cuja mobilização fica entregue aos países que «estiverem em condições de a fornecer».

Portanto: o respectivo Conselho de Paz e Segurança, poderá aceitar as prestáveis ofertas dos estados membros (acorrendo cada um, claro, às suas emergências «preferidas»)... uma vez flexibilizada a actuação dessa FIR até aos limites do inconcebível.

No entanto, com a guerra no Mali em banho maria (e a mensagem terrorista enviada do Niger para a UA), é óbvio que este novo princípio de ingerência vai dar pano para mangas, arriscando-se a agravar os problemas que pretende resolver...

Já agora, a Líbia também está precisada, e é um bom exemplo dos perniciosos resultados obtidos por uma «libertação» imposta de fora. Talvez o Brasil, que tem «um» olho no continente, devesse partilhar o seu conceito de «responsabilidade ao proteger»... De boas intenções está o inferno cheio.

domingo, 26 de maio de 2013

Cabo Verde exporta democracia!

Entrevista do Presidente de Cabo Verde à RFI, em Addis Abeba, na XXI Cimeira da UA.

Será que o Senhor Presidente também pretende restaurar o PAICG? Sim, agora com o cabo antes do fim.

Pelos vistos, a sensatez de Corsino Tolentino não foi suficiente para o esclarecer.

Eu cá acho que está a tornar-se um pouco repetitivo. Há mais de um ano a dizer a mesma coisa...

Condicionar um futuro governo? Tropas no terreno? E mais que veneno?