terça-feira, 13 de novembro de 2012

Espermatugazoide II

Afonso de Albuquerque, capitão da guarda de Dom João II, foi para a Índia com a intenção de cumprir os desígnios, não de D. Manuel (o qual, venturoso, herdara a coroa), mas da própria nação, concretizando o sonho (apenas) de um plano imperial. Tentou, por todos os meios, criar uma elite local, que falasse português e assumisse uma verdadeira e positiva miscigenação, potenciadora das férteis experiências civilizacionais dos dois povos, o português e o indiano.

Deste feliz cruzamento, logo resultou um belo estilo artístico, conhecido por indo-português, e talvez mais frutos não tenha gerado devido à infeliz intervenção da inquisição. Este era o verdadeiro sonho português: não se limitava a «mostrar o mundo ao mundo», mas mostrava-se inquieto de dar o exemplo na prática. O português tem muitas anedotas sobre o mestiço, todas tentando disfarçar o inegável orgulho que o português sente por ser pai dessa invejável «raça».

Mais do que o mundo, e, dele, as riquezas transaccionáveis, o sonho português aspirava à universalidade, concebida como o contrário do tribalismo. Isso era também uma crítica à Europa desse tempo, comprometida e exausta pelas guerras ainda feudais. Ora isso implica um profundo respeito pelo outro, que estava presente nos primórdios da colonização portuguesa, respeito que nunca alimentaram holandeses, ingleses e franceses, para quem o indígena é sempre inferior.

Este é o dilema essencial do colonizador: supostamente, o atrasado (social, mental, industrial) estaria (desesperada e essencialmente, acrescente-se) à espera dos seus bons ofícios. Se a «civilização» serviu de legitimação para o colono, essa ingénua e altruísta motivação opunha-se, quase por definição, à vontade de domínio, a qual acabava sempre por se sobrepor; esse antagonismo, exarcerbado por factores económicos, prejudicou a sã convivência multi-racial.

Mas não era ainda esse o espírito, nos inícios de quinhentos. Para o demonstrar, bastaria invocar a troca de embaixadores com o reino do Congo, com a admissão em Coimbra (a elite portuguesa) dos príncipes congoleses, vindos expressamente, com todas as honras, para aprender o português, com o objectivo de virem a servir como futuros mediadores. Essa ideia generosa e universalista viria a ser rápida e inteiramente corrompida pelo poder do dinheiro, que o tráfego mundial gerava.

P.S. Continua. Tenho muito mais a dizer sobre o assunto, mas tem de ser devagarinho, porque tenho de organizar as ideias. Continua brevemente (vai ter mais umas tantas partes).

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

PAIGC para o museu que Cabral está no Inferno

Citação de uma irritação justificada: 

«Querem ter lucros e direitos de monopólio colonial! Será que até agora não acertaram o passo com o mundo? Continuam agarrados aos sonhos quinhentistas? Dão-se mal com a democracia? Acautelem-se, porque os sinais de aviso são muito graves dentro da própria sociedade dos vossos patrões, dentro da vossa metrópole»

(vide Doka - um dos 3D's da Guiné, link ao lado direito)

Frase que resume o essencial. Assente-se o passivo; logo lembraremos também o activo (em Espermatugazoide II ou III - em preparação). Já se adivinhou, claro, os destinatários da mensagem... Claro que há uma pequena injustiça (quando se fala de «sonhos quinhentistas», pois esses eram belos, ecuménicos e multiraciais), mas compreende-se o sentido, no contexto da libertação.

Espermatugazoide - Assimilados ou Burmedjos? Parte I

Conta uma fábula que uma vez houve uma guerra entre os animais da terra e do céu. Enquanto parecia que os do ar estavam a ganhar, lá andavam os morcegos a esvoaçar, gritando e apoiando o ataque. No entanto, veio a acontecer que os da terra recuperaram terreno e acabaram por ganhar; no fim da guerra, aquando do ataque final contra os últimos ninhos de resistência, viram-se os morcegos na frente de combate, do lado dos da terra, dando vivas sobre as patas e tentando disfarçar as asas o melhor que podiam. Claro que os bichos não eram parvos e criaram um tribunal para julgar o caso, que condenou, para sempre, os morcegos a só poderem viver de noite.

Reparem que a condenação à escuridão não aconteceu por causa da maravilhosa capacidade de adaptação dos morcegos: em si, a polivalência é uma boa qualidade (quantas espécies não se extinguiram por estarem demasiado dependentes de certas condições ou nichos particulares? quantas firmas ou mesmo países não faliram por estarem dependentes de um único comprador ou de um único produto?); o que tramou os morcegos foi terem utilizado essa competência para tentar enganar os outros. Em português há um provérbio (ou melhor, uma única palavra utilizada como epíteto) que ilustra bem a atitude dos morcegos neste caso: «vira-casacas».

Parece que, na origem da expressão, terá estado um aristocrata alemão, o qual, vivendo numa zona de conflito, com avanços e recuos de ambas as partes, terá mandado fazer, a um alfaiate, um casaco com a particularidade de ser «retro-verso»: quando vinham os soldados de um dos lados, era azul, quando vinham do outro, também não havia problema, virava-se o casaco, ficava vermelho. Esperto. Se calhar safou-se melhor que os morcegos, mas o acto ficou-nos plasmado na língua e no espírito como pouco deontológico (se bem que muito comum). Também em Angola, em 1975, a maior parte da população era multi-filiada, com cartões de vários partidos (em bolsos diferentes).

(Continua)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Fraternidade

Tenho a dizer (ou talvez devesse dizer lamentar) que, embora em geral alheio à Guiné, conheço pessoalmente as duas vítimas de espancamento dos últimos dias.

O Silvestre Alves conheci em Lisboa, no ano de 1998... Na altura, apresentou-se nas reuniões da Diáspora como representante pessoal de Ansumane, primando por uma actuação bastante auto-centrada. Ainda me lembro de o ter visitado, em Bissau, no ano de 2001, infelizmente após um outro espancamento (julgo que também por intrigas políticas) numa discoteca.

Com Iancuba, acompanhei a conversão ao Islão, chegando a discutir, ainda me lembro (com o Mamadu), o abandono do álcool como questão teológica... Aparentemente, a adesão ao monoteísmo não o terá tornado mais tolerante (isto não implica qualquer consideração contra essa religião, em muitos aspectos bem mais tolerante que a católica, que é a minha).

Julgo despropositada, indecorosa (e contraproducente) a forma como ambos foram tratados. Aos dois o sincero desejo de um rápido restabelecimento.

Instigação da violência

Lamentável.

Aparentemente, poderosas forças de destabilização estão em jogo.

A teoria da conspiração em curso, quer fazer crer, recorrendo a artificiosas lembranças da guerra colonial (quando os felupes derrotaram realmente uma coluna do exército português com arcos e flechas), que há uma guerra de foro tribal. Simples constatação étnica de mortes anunciadas no Simão Mendes.

Sim, os felupes são calmos, de uma fidelidade a toda a prova, por isso eram etnicamente preferidos pelos colonos para o convívio intra-muros. Mas a teoria apresentada não tem pernas para andar, porque o capitão que supostamente os comandava era balanta, ou estaria simplesmente disfarçado de inimigo?

Os felupes não pedem guerra a ninguém: mesmo etnicamente preteridos (para não dizer ofendidos), é uma população evoluída (peço desculpa pela «forma» colonial), toda fala crioulo (tão bem como os «guineenses» de gema), e, para além disso, a maior parte chama-se Silva, como o Presidente de Portugal.

Tal como muitos povos africanos, não têm a culpa que as suas fronteiras tenham sido traçadas a régua e compasso, noutro continente. Bem sei que me senti bem em território colonial francês, como quando tomei banho frente a Cassine; mas lamento a contra-partida, Ziguinchor.

7ze chora Ziguinchor? Não. Prefiro de longe o chão Balanta. Verdadeiro, genuíno. Falso, traiçoeiro, também. É sempre difícil conviver com a liberdade do outro. Já Cabral distinguia a horizontalidade balanta da verticalidade fula (esses, como sempre, na retranca, do lado do poder instituído)...

Tagma era respeitado em São Domingos e Varela. À bruta, mas era; além disso, tinha legitimidade. Não queiram pois, quem quer que seja que ordena estas «políticas», atiçar rastilhos, num contexto «pós-colonial», porque o felupe é (isto é, claro, um elogio) homem de uma vida inteira.

Quanto aos diolas (les mêmes): jamais (jamé, em francês) se deixem intoxicar por caciques locais... a guerrilha em casa (mansa, porque violenta chateia) cansa: nunca seria razão para chatear os donos do chão. Feel up! Não se passa nada. Isso é o que pretendem os intoxicadores: vão engolir o anzol?

A paz é mansa. Não queiram guerra com aqueles que apenas com arco e flecha fazem frente a metralhadoras! Melhor que isso, no mundo inteiro, só guerrilheiro balanta na defesa do seu chão. A paz é boa, nada de kansá-la com despropósitos. E eu não mendigo!

Um óptimo professor da minha faculdade (mesmo se eu não era dessas áreas) é o Prof Doutor Costa Dias, que tem um conhecimento aprofundado destas questões: não estará na altura de um jornalista esperto o abordar com meia dúzia de perguntas inteligentes (deixem estar que ele faz o resto)?

Estou céptico: consegui disfarçar bem a minha preocupação? Ninguém lucra realmente com esta intriga, a não ser os mesquinhos que por incúria se acoitam nas Necessidades, mais os seus amantes sub-tropicais, cuja infeliz história talvez tenham tornado insensíveis à vida.

Quem faz a guerra dentro para agradar aos de fora? Como diria o cúmulo (perdão, o Kumba), estamos todos condenados a viver juntos: quem quer salpicos de sangue na roupa e/ou na consciência? Já ouvi dizer a entendidos que são mais ou menos indeléveis.

Vamos acordar um por um?*

*Bela expressão guineense face aos (crónicos) tempos de instabilidade: se o primeiro que acordar, acordar o outro, quer dizer que não houve crise durante a noite; que mais pode um homem pedir, face ao omnipotente, senão um dia de cada vez?

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Enxovalhanço da bandeira

Bem sei que me acusam de não explicar bem os contextos e de isto ser só para entendidos... Ok, mas isso é uma crítica de tugas. Não me apetece explicar nada. Aviso que isto tem apenas a ver com a realidade guineense, infelizmente, hoje, sob ameaça de um infeliz candidato a ditador com origem portuguesa.

A bandeira nacional de Portugal foi triste, mas merecidamente, enxovalhada, em Bissau. Sim, porque a bandeira é um símbolo físico, uma imagem actual, não uma herança estrutural, como o português. É o coroar da triste orientação externa deste governo, já desgovernado em negócios estrangeiros desde a Líbia...

O lamentável inspirador desta política de atrofio, Paulo Portas, só e pretensamente orgulhoso, foi aparentemente conivente em mais uma manobra recente (esta semana) de Angola para ocupar militarmente a Guiné-Bissau, numa (portanto inimaginável) operação aero-transportada em aviões pesados Ilyushin?

Para isso era necessário tomar conta do perímetro de Bissalanca, garantindo a aterragem dos blindados da testa de ponte da CPLP, ONU ou qualquer coisa que se inventasse a seguir, sempre muito baseado na retórica da reposição da legitimidade (fica sempre benzoca, claro, Catarina).

Sem qualquer consideração pelas consequências dos seus actos, fizeram avançar um peão (por isso é vendida a «contra-história» no Ditadura) a quem fizeram acreditar na sua «beleza» e super-potência (claro que há comunicação entre actores mas isso não garante argumento sólido a qualquer ficção!).

Já agora, as declarações emanadas das Necessidades, segundo o insuspeito Aly, são perfeitamente histéricas, inconsistentes e «à coté de la plaque»: depois de recusar laconicamente qualquer comentário, sobre o seu envolvimento no caso, vêm desmentir o «estatuto» de exilado político do bicho?

Então não reconhecem o assunto mas discutem-lhe os meandros? Sim, o implicado não era simples refugiado, era pior: tratado com especial deferência, senão mesmo acarinhado, pela hierarquia; um bom peão para avançar na altura certa. O exército português não sangra, gangrena.

Reconhecem portanto, que, mais que um simples refugiado político, teve formação e «inspiração» militar em Portugal... Tinha, como muito mais gente, o número de telemóvel do CEMGFA. Toda esta situação faz-me estranhamente lembrar do provérbio «vira-se o feitiço contra o feiticeiro».

Depois de algum tempo de ausência, aderindo ao impasse, um abraço grande ao Didinho, ao Doka, à Titina, ao Filomeno, e a todos em geral, mas um em especial ao irmão de Gabu, Sancho Fula, de quem não resisto a citar a poesia:

«Bo purdan. Ma ê cuça di squirbi na criol i cuça di brincadera di Didi.
Língua câ tem duno.
Bu pudi raiba cu políticus di Portugal. Ma língua ca tem culpa. Língua e ca di çels.

Português i di nos tudo.»

Que calor na alma.

Saudades & Mantenhas di ermondade

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Resposta ao pedido de adiamento das eleições de Samakuva

O líder do maior partido da oposição pediu ontem uma entrevista com o Chefe de Estado, para legítima e justificadamente lhe pedir o adiamento das eleições, face às graves irregularidades que mancharam a sua organização e ferem de ilegitimidade quaisquer resultados a publicar.

A resposta veio agora, não como um desejável telefonema da parte de José Eduardo dos Santos, mas pela boca do Comandante da Polícia Nacional (numa injustificada escalada verbal por parte das autoridades) ameaçando defender «até às últimas consequências» o Presidente...

Sente-se encurralado, Senhor Presidente? Face ao autismo de que tem vindo a dar mostras, já todos lavaram as mãos. Não feche a porta ao diálogo, não queira sujar as mãos; pegue no telefone e poupe Angola a inevitabilidades das quais se constituirá como único responsável moral.

Ti Zé, arreda o pé, tô prazo expirô há bué...

Tzé aconselha Luaty: melhor que licor Beirão!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

terça-feira, 28 de agosto de 2012

As opções de José Eduardo dos Santos

70 anos, metade deles de poder…     Não farta?   Não estará na hora de aproveitar aquilo que a vida, o dinheiro podem proporcionar? Uma saída em beleza não é preferível ao opróbrio?


O respeito também deve ser levado em conta. Mas isso estaria garantido! José Eduardo dos Santos tornar-se-á sem dúvida um grande estadista se perceber que chegou a hora de abandonar o poder.

Não julgue que sai mal, Senhor Presidente! Se sair neste momento, negociando as condições em que o faz, será muito mais proveitoso, para o seu orgulho, que outras opções mais arriscadas…

Espero que o pragmatismo que tem demonstrado ao longo da vida e lhe permitiu os sucessos que se lhe conhecem, o possa benevolamente aconselhar neste momento crítico da sua carreira.

Espero que o exemplo do seu amigo Nelson Mandela o possa inspirar e lhe evite trilhar um momento de desespero que só poderá acabar mal (para si, a sua família e, infelizmente, para muito mais gente).

Na disposição de todas as suas faculdades (e hoje que é o seu dia de aniversário, muitos mais anos de vida, reconciliado com a Nação!), permita que se lhe pergunte se julga que dura para sempre.

Na memória dos angolanos, talvez, mas então que seja para o bem. Se algum genro, ou género de alternativa, se perfilasse, seria outra coisa. Estaria a defender a sua dama e ninguém levaria a mal.

Console-se, reconcilie-se com a morte, como manda a tradição africana, com toda a sua experiência, o bem que fez a Angola (e o mal lhe seja perdoado) e o legado que deixa em tão boa conta…

Aceite um merecido descanso; não espere que a Nação possa aceitar que se arrogue perpetuar o autismo e se disponha a sofrer passivamente senilidades sem sentido e sem futuro.

Angola é uma nação nova bafejada pela sorte (ou azar – como julgava Salazar) de ter petróleo (o qual entretanto subiu bastante nas cotações e nos termos de troca internacionais). Economia, enfim.

Sendo um homem esperto e inteligente, continua a ser a uma chave para uma possível solução equilibrada e negociada. Uma nova Angola, aberta a todos, com o contributo de todos.

Será de facto uma Angola muito mais rica. Em experiências, em saberes, em oportunidades, em competência. Na diversidade. No confronto de opiniões. Apostando no mérito, não no seguidismo.

Não queira hipotecar gratuitamente o valioso contributo de toda a sua vida. Por favor, senhor Presidente, telefone ao General Silva Mateus.

Dos Santos tem pés de barro e se tenta...

70 manter-se no poder, vai ser triste.

Como diria (ou melhor, cantaria) Marilyn Monroe, happy birthday to you, Mr President.

Depois da inauguração da marginal, que decorreu em Luanda esta manhã sem problemas, está na hora da cereja em cima do bolo: o General Silva Mateus conduz (supostamente) os seus «rapazes» para o Planalto, com o objectivo de cantar os parabéns ao Senhor Presidente, numa manifestação de descontentamento (bela diversão: quando for a hora, não saberão que horas são).

É, sem dúvida, um gesto (mudo) pleno de significado, um tranquilo e pacífico apelo ao diálogo. Apelo e diálogo que Eduardo dos Santos tem ignorado senão recusado, sucessiva e sistematicamente: sabendo-se fragilizado, sofre da tentação da fuga para a frente. Agora que deu o flanco, Senhor Presidente, que já sabemos que não é verdadeiramente Deus, está arrumado!

As primeiras manifestações dos Antigos Combatentes da COEMA, em Junho, provocaram grande surpresa, tendo JES visto nelas uma maquiavélica «mão estrangeira». Talvez não devesse ter-se metido com os seus antepassados guineenses: há relações «simpáticas» com os velhos camaradas da(s) Luta(s) de Libertação, em Bissau os Antigos Combatentes são respeitados!

Poderá sempre contar com asilo na Guiné-Bissau, se bem que não como candidato a presidente da República: é que a lei guineense é mais restritiva que o era o sistema nazi para preservar a integridade ariana, sendo necessário provar ascendência exclusivamente nacional por três gerações!

Mas a Comissão de Ex-Militares Angolanos e o seu Alto-Comissário constituiu-se sem dúvida como a principal organização de oposição real, traduzindo a vontade de mudança de toda uma Nação, encarnando a recusa actual da ideia da petrificação da «ordem» e sistema em vigor por mais um mandato; não há pachorra!

As calmas declarações do General-Comandante à Radio France Internacional, enquanto marchava este sábado em Luanda na manifestação da UNITA, são disso prova cabal. Poucos dias antes, dirigira-se pessoalmente a JES, afirmando que só parariam quando recebessem um telefonema pessoal dele.

Este desafio cristalizou assim todas as esperanças da oposição. O cheiro a esturro começou a levantar-se ontem; uma inflacção instantânea dos bilhetes para Lisboa, que dispararam de $1500 para mais de $2200 e a tendência parece ser claramente para a continuação do agravamento brusco, levantando velhos fantasmas.

Por falar em fantasmas, temos a ALCOFA, contra-organização fantasma que traduz claramente o desespero de JES. Do alto do seu pedestal de «Deus», não se apercebeu que sofreu um golpe fatal em Bissau; foi esse sinal de fraqueza que deu origem à convicção de que o seu regime, embora se lhe deva a Paz, já não serve.

A UNITA, depois das cisões internas que inevitavelmente teria de provocar a convicção generalizada da grande fraude que se prepara para (mais) estas eleições, e o seu posicionamento «nas mãos» do aparelho, passou a ter, neste tabuleiro, um papel pouco mais que residual.

JES, como velho estalinista convertido ao Livro Verde, achava que o dinheiro do petróleo pode comprar tudo; enganou-se em Bissau; e enganou-se, se esperava, atirando dinheiro ao ar, desmobilizar Silva Mateus. A dignidade não se compra, Senhor Presidente.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Bons exemplos de Angola

O «modelo» angolano também tem coisas boas. 

Em tempos de crise na «metrópole», avivaram-se as reminiscências da antiga colónia: a relativa paz e estabilidade do regime conseguiu criar o sentimento, junto dos antigos colonizadores retornados, da oportunidade e «viabilidade» de uma nova implantação.

Com a Europa em crise, o óbvio excedente de mão-de-obra qualificada (agora desocupada) permitiu ao Regime angolano dispor de uma base de recursos humanos, de quadros qualificados, dispostos a investir o seu futuro numa economia com grande potencial...

Mas há um grande problema a resolver: essa participação branca no desenvolvimento não pode hoje ser feita como o era há quatro décadas atrás, a coberto de um sistema administrativo colonial. Surgiu então o sistema de «parceria» indígena.

Qualquer empresário estrangeiro que pretenda estabelecer-se, nunca o poderá fazer na base de livre concorrência, pois nunca mais se livrará de um pesado e autoritário sistema de corrupção, apenas destinado a instituir, nessa «troca», o poder «local».

Este protocolo institui um contra-peso formal (a «angolanidade» de parte do «capital») supostamente garante do bom «despacho legal» dos assuntos e da «protecção» da propriedade envolvida, contributos imateriais mas perfeitamente incontornáveis.

Poderíamos acrescentar que, se o princípio parece bom, já a forma como a coisa é feita, graças a um «tributo» mental anti-colonial, é decerto indutora de um elevado nível de «stress», fomentando a manutenção de pseudo-elites e o reforço da teia de corrupção.

A sujeição dos candidatos a «colonos» aos «donos» da terra permite decerto a tranquilizadora visão de uma sustentabilidade endógena, mas a tessitura parece feita de uma ilusória superficialidade... ao basear-se numa compensação histórica (por inversão).

É que a afirmação de uma identidade não pode ser feita exclusivamente com base no poder que o dinheiro consegue comprar, por imenso que possa parecer (sobretudo quando a imensa maioria dos angolanos se vêem excluídos de participar dos seus benefícios).

O orgulho de ser angolano terá de buscar outras origens, num desenvolvimento económico-social credível, na formação de quadros competentes, na aposta de o seu país se tornar um bom exemplo para África (que talvez possam então ajudar a «crescer»).

Uma identidade não pode basear-se na simples promoção de um mito de superioridade traduzido num discurso tipo «Se quiserem o nosso dinheirinho, têm de se agachar», sem correr o risco de relançar um outro apartheid (de auto-exclusão em condomínios).

Angola teve o mérito de mostrar um caminho possível para África: chamar quadros europeus competentes mas desocupados para ajudar no seu desenvolvimento, partilhando os benefícios da exploração inteligente dos seus recursos (sobretudo minerais).

Mas esse «modelo», perfeitamente plausível, teria tudo a ganhar em ser pensado em bases mais saudáveis, de verdadeira parceria e cooperação, facilitanto a inserção dos europeus na sociedade angolana, numa verdadeira partilha de objectivos comuns: Angola!

A pessoa melhor colocada para o fazer, para uma alteração estratégica e humana de fundo, essencialmente mental (como se vê reclamar no cartaz da juventude: «Libertem as mentes dos angolanos»), é sem dúvida o artífice da estabilidade política do país.

Justificar-se-ia, no contexto das eleições, uma grande reflexão e debate sobre o assunto, evitando os lugares comuns, os discursos vazios, os projectos sem amanhã, as promessas eleitoralistas gratuitas, tudo efectuado na certeza dos resultados a emanar das urnas.

Angola poderia ser um país de oportunidades para todos, sem complexos (de inferioridade ou de superioridade, vai tudo dar ao mesmo), sem reservas mentais, sem se manter como refém de uma mentalidade essencialmente mesquinha. E teria tudo a ganhar.