Num espontâneo e interessante exercício de cidadania activa, um grupo informal de 17 jovens, depois de organizar uma discussão em torno da actual situação do país, decidiu-se a avançar com um «manifesto» resumindo a conclusão a que chegaram. A iniciativa consiste no apelo a que ninguém vote «Nim PAIGC, nim PRS».
Feito o balanço, são «40 anos de desgovernação, que se resumem em atraso, intimidação, crimes, má imagem da Guiné no exterior, desestruturação social e futuro comprometido». Salvaguardando que não estão contra ninguém em particular, pois também existem pessoas bem intencionadas nesses partidos.
Estão sim contra toda a cultura de irresponsabilidade que conduziu à infeliz situação actual, os seus modi operandi e a total incapacidade demonstrada. «É preciso entregar o país a pessoas capazes», cuja legitimidade não lhes advenha de obrigações partidárias, mas de um compromisso claro com a Guiné.
Levando até às últimas consequências a ideia: Nem PAIGC, nem PRS, nem eleições.
Desde já, com conhecimento aos interessados por email, coloco este blog à vossa disposição, no sentido da divulgação de futuros comunicados no âmbito da vossa feliz e oportuna iniciativa, traduzindo o sentimento que se vive, em crescendo, no seio da população da Guiné-Bissau.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Vox populi
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Regime angolano cai no ridículo
O regime autocrático de José Eduardo dos Santos mantém reféns as mentes dos angolanos, conduzindo a situações que, se não fossem dramáticas, seriam risíveis. Um manifestante, detido numa marcha pacífica, desaparecido durante dois dias e sem acesso aos seus companheiros e advogados, aparece agora, num comunicado oficial, como acusado de «tentativa de homicídio» na pessoa do chefe de uma esquadra!
Desde armas colocadas na mala do carro de um general para o acusar de porte de armas, a cocaína na mala de um músico em viagem para o incriminar no destino, os recursos empregues parecem não recuar, nem perante recatos de maquiavelismo, nem perante um elementar senso do ridículo.
Ver notícia do Público.
Singular incongruência
Num comunicado do PAIGC, há pouco divulgado pela Lusa, o partido pretende lavar as mãos relativamente aquilo que designam por «impasse político» e pressionar o Presidente da República. Transcrevo o parágrafo relevante
«A base e a origem das propostas de formação de Governo são os partidos políticos e o primeiro-ministro. Os responsáveis da transição devem colocar os interesses da Nação e dos guineenses acima dos seus interesses e compromissos pessoais».
O PAIGC a moralizar? Há uma dupla incongruência. A base, a iniciativa e a origem da proposta de formação de governo é (no singular) o Presidente que pode demitir o Primeiro-Ministro e nomear outro. Por outro lado, se estão a falar do Presidente (no singular), não se percebe porque falam no plural («os responsáveis da transição»).
Ex-militante desse Partido, sua Excelência o Presidente da República, tem mantido uma grande dignidade em toda esta situação (por enquanto, não vejo transição). Os ataques à sua pessoa, em nada podem ajudar ao processo em curso. Quem não tem dado mostras de saber estimar os «interesses da Nação» são os elementos desse Partido, que parecem estar a bloquear uma solução política que vai contra os seus interesses pessoais.
Resposta do embaixador americano na UA
Quando questionado sobre a abordagem «militarista» dos Estados Unidos aos problemas africanos:
«The U.S policy towards Africa has never been a militarized policy. We never colonized any African nation. We never controlled a single country in Africa, we never sought to control a single country in the continent.»
Em extensa entrevista concedida em inglês, em Addis Abeba, ao The Ethiopian Herald.
Gastronomia
A cozinha guineense afirma-se no panorama internacional.
«Muito embora tenhamos que recorrer às ajudas internacionais, o cozinhado far-se-á no caldeirão dos guineenses e de forma soberana, porque quem o irá servir (e comer) - seja quente ou frio - somos nós e mais ninguém! Por isso damos prioridade à estabilidade política na nossa terra, em detrimento das eleições»
Apenas para felicitar o Nababu Nadjenal por mais um relevante contributo
para a análise da actual situação na Guiné, publicado na nova página do
Doka. Aproveito para transcrever alguns trechos que me parecem mais
relevantes, mas começo por criticar um ponto em particular, que me
pareceu dissonante:
Ter-se-á mesmo de recorrer a essas ajudas? Não será um mau princípio? Não será colocar o ouro nas mãos dos bandidos? Entregar o rebanho ao lobo? As afirmações soberanas precisam de se alicerçar na plena independência, não podem estar reféns de mitos da dependência impostos do exterior.
A democracia tem muitas formas, e a melhor forma de perverter o seu espírito é esse escrutínio de que fala Nababu. Não esquecer, na Guiné-Bissau (tal como em Portugal, aliás), a metade silenciosa do eleitorado, cuja abstenção talvez seja uma opção consciente e «activa».
«A comunidade internacional não tem ideias para África, tem uma cassete: as eleições, como se isso fosse o remédio para todos os males. (...) Para a comunidade internacional, a democracia redunda na realização do escrutínio, como se isso fosse a única forma apropriada, em cada etapa, de aclarar a situação política. Foi-nos incutida a noção eleitoral que distingue, de um lado, os vitoriosos, aos quais tacitamente é outorgada carta-branca (até para matar se for preciso) e, por outro lado, os derrotados, que devem ser silenciados e escorraçados. Ou seja, as legislaturas transformaram-se em transições sucessivas para o monopartidarismo, no seu sentido puro e duro»
Um monopartidarismo cinzento, apenas preocupado com o seu umbigo e a sua manutenção no poder, a todo o custo (que acaba sempre por ser o do desenvolvimento). Essa «democracia» autista e, em muitos casos, «musculada», não serve os interesses dos povos africanos nem a sua aspiração ao desenvolvimento.
«Estamos a pensar no fenómeno “banho” muito em voga nos nossos países, organizado pelo partido no poder, uma forma hipócrita e sarcástica de abertura ao multipartidarismo (...) As cartas estão viciadas, porque baralham e voltam a dar as mesmas cartas!»
Não é preciso um governo «inclusivo». É necessária uma governação «inclusiva», que oiça os principais interessados, escute os actores, medeie e modele um compromisso entre a modernidade e uma sociedade exemplarmente diversa, tolerante e construtiva como é a guineense, fazendo-a brilhar no plano mundial.
P.S. Salazar, a propósito de democracia, dizia: «Se quiseres que continue tudo na mesma, nomeia uma comissão; se quiseres deixar obra, nomeia um responsável.» Atingidos certos consensos nacionais, torna-se mais prático plasmá-los legal e legitimamente através de formas mais directas de democracia.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Jagudi na sonda si limária
Face à desintegração da CPLP, à sua manifesta incapacidade para desempenhar um papel positivo e mobilizador no desenvolvimento dos países de expressão portuguesa, os Estados Unidos parecem resolvidos a ficar com uma parte do bolo: a que lhes é mais chegada.
Ver recente artigo publicado por Nikolas Kozloff no Huffingtonpost.
África decerto dispensa importar uma «guerra religiosa», trazida no rasto de chumbo e cinzas dos fantasmas dos americanos. Chocou-me o comentário ponderando como factor positivo [para a instalação de uma base militar] a «ausência» do Islão. «São Tomé and Príncipe could be a promising site, the Americans believe, since the islands are heavily Catholic and have no history of Islamic militancy.»
Os Estados Unidos parecem actuar tal como um elefante numa loja de porcelana. Por este andar, brevemente haverá muitos cacos para apanhar.
Descolonização dos Açores
Os Estados Unidos desinteressaram-se da manutenção do grande porta-aviões que mantinham no Atlântico Norte. A Europa, constituída como bloco, deixou de ser um foco de atenções, o interesse deslocou-se para Sul, num contexto mais global e actual de neo-imperialismo, com objectivos já não tanto estritamente militares, como era o caso durante a guerra fria, mas agora de garantir o acesso privilegiado a fontes de energia e matérias primas, sobretudo fazendo face à intensa actividade de interesses chineses na zona.
Preparam-se agora para colonizar os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, transformando-os em bases militares avançadas dos seus interesses económicos. Qual espada de Damocles suspensa sobre o Continente, toda a África Ocidental (em sentido lato - do Cabo a Gibraltar) ao alcance do punho. Os americanos não devem iludir-se: o problema de África, bem exemplificado pelo caso da Somália, é precisamente o de encararem apenas soluções militares, sem lidar com as causas profundas.
Se a intervenção da França no Mali irritou a União Africana, que dizer da anexação à América continental da orla costeira ocidental? Acabou-se a deriva: é a união dos continentes!
Caricaturas UA
Com os devidos créditos ao excelente site alemão DW, pela recolha, três cartoons espectaculares sobre os desafios da UA...
Haswel Kunyunye, do Malawi

John Swanepoel e John Curtis, da África do Sul
São Tomé & Pilatos
Num show off de contabilidade duvidosa, as autoridades são tomenses promoveram uma «queima» de droga que pretendia demonstrar o seu empenhamento na luta contra o tráfico, como noticia hoje o site alemão DW, num artigo da autoria de Ramusel Graça.
No entanto, salvo erro de transcrição do jornalista, é difícil perceber como, com 11Kg de haxixe e 2,4 de liamba, se consegue perfazer o valor estimado de meio milhão de dólares: em Portugal, por exemplo, as quantidades apontadas dificilmente ultrapassariam os cinquenta mil dólares e a preço de retalho.
Para mais, tratando-se de drogas «leves», em processo de descriminalização em vários países (inclusive em alguns estados dos Estados Unidos), a encenação revela-se um pouco forçada, para não dizer mesmo, de mau gosto, no sério contexto da luta anti-droga transatlântica.
Pouco mais de três meses antes de 12 de Março de 2012, o mesmo site publicava uma notícia afirmando que estudos recentes evidenciavam o quanto o Brasil se tornou numa grande porta de saída de droga da América Latina para outras partes do mundo, com destaque para a África, com Angola e a Guiné-Bissau no centro do tráfico da droga
«O Brasil se tornou o principal ponto de partida da cocaína enviada para África. O delegado da Polícia Federal cita Angola e Guiné-Bissau, para além da Nigéria e do Senegal, como parte das placas giratórias da droga, destacando o papel de passageiros africanos que fazem o transporte da droga. Segundo o criminólogo, Genilson Zeferino, muitas vezes, envolvem jovens, tanto por aqui, como no continente africano: “No caso de África, sem uma política que dê à juventude condições de estudo, de trabalho, o tráfico de drogas aparece como possibilidade para ganhar dinheiro. É muito comum o caso de jovens que são envolvidos como “mulas”, o que não quer necessariamente dizer que são viciados”.»
Reparámos, no Progresso Nacional, que ainda ontem, o embaixador da paz da CEDEAO apelou aos governos e instituições da Organização para darem mais poder aos jovens, em prol da paz, estabilidade e desenvolvimento. Na sociedade africana, ainda bastante tradicional, o lugar dos mais velhos, com a sua experiência e sabedoria, deve ser acautelado; mas o papel dos mais novos, que poderão dar um impulso vital para o desenvolvimento, não deve ser descurado!
Preparem-se para intervir por todo o lado
A AFP, agência noticiosa francesa, acaba de publicar um artigo do seu correspondente em Nairobi, com vários contributos, um deles o de Musambayi Katumanga, professor de Ciências Políticas na Universidade de Nairobi:
«Si vous voulez créer une force de réaction rapide, préparez-vous à intervenir partout, car la plupart des Etats africains ne sont pas viables, même si leurs dirigeants refusent de le reconnaître. Ils sont dans la même situation que le Mali, c’est juste une question de temps.
L’insécurité africaine a commencé dés la Conférence de Berlin, quand les puissances coloniales européennes se sont partagé le continent, traçant des frontières niant l’histoire.»
Uma decisão histórica para a UA seria abolir o «tabu» que pesa sobre esse facto!

