Pelos vistos, a Guiné-Bissau serve de bombo da festa para todas as ocasiões, saco de boxe para descarregar a má consciência generalizada da comunidade internacional, bode expiatório ideal para todos os males existentes no mundo.
Num encontro presidido por William Hague, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros inglês, perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, contando com a presença do Secretário Geral (para além de uma linda e angélica estrela de cinema) e com mais de seis dezenas de oradores, destinada a «incrementar os esforços para acabar com a impunidade relacionada com a violência sexual associada a conflitos», o embaixador do Paquistão junto das Nações Unidas, depois de evidenciar como a violação pode destruir a vida das famílias envolvidas, referiu como exemplos negros a Líbia, logo seguida da Guiné-Bissau.
Para além de golpistas, traficantes de armas e de droga, terroristas e conspiradores contra os Estados Unidos, faltava esta, agora os guineenses também passaram a violadores de primeira.
Isto justifica, no mínimo, uma forte nota de desagrado a enviar ao Conselho de Segurança pelo MNE; o pronunciamento de Ramos Horta sobre o caso; uma viva reacção da opinião pública.
Ler a agência noticiosa paquistanesa sobre o assunto.
Sugere-se que, em vez de procurar, através de bodes expiatórios, branquear os problemas muito reais das mulheres violadas, os bem intencionados promotores dos Direitos dos Homens e das Mulheres, procedam à identificação de situações reais e não inventadas, o que só pode descredibilizar a Organização, bem como a própria iniciativa, em si louvável.
Apenas para ajudar, poderiam citar-se casos práticos, na própria CPLP, que deveriam merecer a atenção das Nações Unidas. Ainda hoje foi publicada uma notícia relacionada com a violência sobre as mulheres em Angola. Além disso, o regime tem utilizado sistematicamente e de forma continuada, a violação de mulheres pelos militares, como forma de castigar o povo de Cabinda.
terça-feira, 25 de junho de 2013
Bater no ceguinho
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Opinião
As duas eleições em simultâneo podem trazer uma nova crispação, absolutamente desnecessária! Parece-me claro que Cadogo vai querer candidatar-se, tem toda a legitimidade para isso e, se não aparecer uma figura consensual, não tenho dúvidas de que vai ganhar com toda a facilidade.
Convencê-lo a não participar será um acto falhado porque ele está com ganas de voltar e, na actual conjuntura, o regresso dele será o mesmo que atirar um fósforo aceso para um barril de petróleo. Ainda existem muitas etapas para queimar em Bissau antes de se avançar para as Presidenciais, isto se não quisermos dar um passo em frente para depois dar dois atrás!
Marcelo Marques
Lembrando o Didinho
Pouco antes das eleições presidenciais de má memória:
«Para mim, é urgente iniciarmos uma nova etapa na Guiné-Bissau, romper com figuras que simbolizam a apatia, o conformismo, a mentira, a divisão, a ganância, a corrupção, o crime de sangue, a injustiça nas suas múltiplas vertentes, etc. O Professor Emílio Kafft Kosta pode vir a ser (caso decida por isso) um alicerce de garantia segura na edificação de uma Guiné-Bissau Positiva, através de uma mudança que se impõe como corolário da afirmação de novos valores e referências nacionais dispostos a devolver a dignidade à Guiné-Bissau e em prol do bem-estar comum! Aos meus irmãos guineenses, peço que estimulem a mudança, apoiando e motivando valores nacionais que não enganam, tal como o Professor Doutor Emílio Kafft Kosta e muitos outros, que, contudo, têm sido "desconsiderados", impedidos até, de ajudarem com os seus conhecimentos, na busca de soluções para a Guiné-Bissau! Caro amigo de longa data, Emílio Kosta, gostaria de te ver a ocupar o mais alto cargo da Magistratura guineense, o de Presidente da República!»
Perfil do futuro Presidente
Antes de começar a discutir nomes, talvez valesse a pena lançar um debate mais «anónimo» acerca do perfil indicado para o cargo, à semelhança do que o Progresso Nacional em tempos fez para o cargo de Chefe de Estado Maior das Forças Armadas.
Avanço já com a minha opinião. Com toda a recente conversa de «inclusividade», seria um equívoco pensar que o Presidente deve ser um homem de consensos; pelo contrário, julgo que deverá ser um patriota intransigente. Um homem que saiba bater o pé, encarnando uma legitimidade consubstanciada num projecto claro de extirpar da sociedade guineense a condescendência para com «quadros» políticos medíocres, corruptos e prepotentes. É preciso um grande empenho na consistência (já chega de brincar aos países) e transparência (para a credibilidade); esse desafio não é fácil, vai ser preciso uma personalidade férrea (para não dizer ferrenha e teimosa) e conhecedora do país, para não se deixar enganar. Como terá pela frente imenso trabalho, será preciso não deixar em mãos alheias os seus créditos e arregaçar as mangas, mesmo sem ar condicionado.
Para já, uma «pré-candidatura» de Paulo Gomes seria um tiro no pé. A acreditar no Progresso Nacional, parecem haver movimentações no sentido da recolha de apoios... tentando eventualmente antecipar-se na «sugestão» de uma terceira frente «sociedade civil», para fazer frente aos candidatos do PAIGC e PRS. Nos provérbios bíblicos recomenda-se a humildade, para não tentar ocupar lugar de prestígio à mesa, pois pode chegar alguém mais importante, e sermos obrigados a levantar para lhe ceder o lugar... mais vale que nos sentemos lá atrás e depois nos chamem para os lugares da frente. O problema será, obviamente, o «milagre» da multiplicação das terceiras vias, que só servirão para reforçar o partidarismo bipolar. Essa poderia ser uma iniciativa do Fórum dos Partidos, discutir perfil e projecto, encontrar uma personalidade consensual para o cargo, convidá-la, sugeri-la aos eleitores e apoiá-la nas urnas, encarnando assim um projecto sério de mudança.
Já há dez anos Paulo Gomes era o «mais falado»...
domingo, 23 de junho de 2013
Neologismo angolano
José Eduardo dos Santos, sentindo-se ameaçado, avançou para um «plenário» com a juventude. Até o caso dos dois activistas desaparecidos o ano passado foi referido, mas a situação de Emiliano Catumbela manteve-se tabu, o que não deixa de ser bastante revelador...
É impensável que, de entre os presentes, ninguém se tenha lembrado de perguntar aquilo que vai no coração de tantos angolanos... em relação à sanha cega de José Eduardo dos Santos. Mas esta «abertura» é sobretudo uma vitória de Luaty, Emiliano e alguns jovens mais.
O Jornal de Angola, para o qual me chamou a atenção o No Djemberém, traduziu empowerment por «emponderamento» (o corrector ortográfico está-me a sublinhar de vermelho, e com razão). Mas é natural, a falta de jeito para a tradução do inglês (aliás, americano).
A tradução deve ser conveniente e adequada. É que empowerment quer dizer transmitir poder, o que não foi claramente a intenção (basta olhar para a foto e a pose formal e doutoral do um para todos). Para neologismo, empoderamento é mau, mas admissível.
A ponderar, se estamos perante boa fé do Presidente ou simples maquilhagem do regime da parte de José Eduardo dos Santos... O futuro o dirá. Esperemos que não saia frustrado.
Hunger in Guinea-Bissau
Uma amiga italiana com quem troco selos, a Lisa, escreveu-me preocupada, depois de ter lido na imprensa italiana as declarações de Ramos Horta, alertando para a situação de crise alimentar na Guiné-Bissau, e sabendo do meu interesse pelo país. Depois de me pedir para lhe explicar em poucas palavras a situação (disse que tentara pesquisar na internet, «mas não tinha percebido nada») terminava, ao despedir-se, desejando boa sorte aos guineenses.
Transcrevo aqui a minha resposta, em inglês, que é a língua que utilizamos para nos correspondermos.
And thanks for your wishes for Guinea-Bissau. Italy contributed greatly in the end of the 70's and early 80's with aid to the country. People want to start again there, in one of the poorest countries in the world: we have many qualified people around the world and we will show the example to Africa, as we already did, only with Argelia in Africa, liberating ourselves from colonialism. What Selassie did not acheive (alone, without foreign help) with Mussolini. Now we need trust from around the world, against the neo-colonialist campaign that the portuguese gouvernment is leading, acting as Guinea-Bissau remains a colony. Maybe, as philatelist, you know the name of Guinea-Bissau, but you can not see it at first view in the globe, between Senegal and another Guinea (ex-french), and there are not many people knowing the name... People in Guinea feel some times forgotten by the world (only 3h flight from Lisbon). But believe that GB is a beautiful country, asfixiated and blocked by Portugal and European Union since more than one year (not only cutted all the humanitarian help but also created obstacles to incipient local economy), under political alegations of coup d'etat (no blood - and it was not a coup, but a counter-coup that ousted a traitor conspirating with alien military forces, that after being hold, was released by humanitarian reasons). People feed great hopes to the momentum, but because of the political blocus and a bad cotation year, the kashew campaign (financing basic rice for 2/3 of families - Census 2010) was really bad (producer couldn't get more than 1/3 last year prices per Kg) ; increasing the problems, all imported goods are scarce and out of price, from milk powder for children (it's not nice, with so much EU milk excedent, to condemn bissau-guinean children) to gasoline pricing more than 2€/L...
sábado, 22 de junho de 2013
Reforma das FA
Ramos Horta aterrou em Dili e de lá fez saber que tem em preparação uma conferência sobre a Reforma das Forças Armadas a realizar em Julho. O Representante Especial do Secretário Geral das Nações Unidas parece disposto a pegar o boi pelos cornos.
Nesse contexto, gostaria de sugerir uma possibilidade: a introdução do Serviço Militar Obrigatório, com período curto (estilo seis meses), de forma a rejuvenescer as FA e a reconstituir, no seu seio, o mosaico étnico que constitui a Guiné-Bissau, tornando-as e fazendo-as sentir como realmente nacionais.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Primatura vacante?
O Presidente Nhamadjo tem desempenhado com grande dignidade, eficácia e transparência o mandato recebido do Comando Militar que assumiu o contra-golpe de 12 de Abril do ano passado. Tem dado entrevistas em cenários caseiros e informais (veja-se as que concedeu ao Doka) e não foi por isso que os parentes lhe caíram na lama.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Divergências na CPLP
Grandes divergências em torno da Guiné-Bissau, na reunião informal dos Presidentes dos Parlamentos da CPLP, motivaram um bom atraso nos trabalhos, mas acabaram por dar origem a uma decisão histórica: o reconhecimento do Pacto e Acordo de Transição, saídos do golpe do ano passado, abrindo assim o caminho à regularização da situação da Guiné-Bissau na organização.
Ramos Horta não apareceu na conferência de imprensa, mas mandou recado: tem um «plano completo e bem organizado na cabeça» para a Guiné-Bissau. Grande cabeça... Pena que não lhe tenha ocorrido que os interessados poderiam gostar de conhecer em primeira mão esse projecto global e finalizado (enlatado e «chaves na mão», funciona sempre e prescinde dos guineenses)...
Uma vez que foi convidada a delegação guineense (presume-se que a título de «observador»), seria interessante que um jornalista «a sério» tratasse de descobrir (para a história) a razão das fortes divergências ocorridas. Eu não sou mosca (quer dizer, só de nick), mas presumo que o representante de Angola terá sido um dos pólos de divergência, como fez questão de informar...
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Herança de Paz
A Bola publica hoje um artigo dedicado a Mandela, no qual De Klerk, a «cara metade» de Madiba no Nobel de 1993, realça o seu importante legado: uma transição pacífica, que sobreviverá ao seu funeral.
O desapego ao poder pessoal, foi decerto um factor importante nessa herança. Quem o abandona em vida, conserva-o no além: quem a ele se agarra nesta vida, será abatido por Deus e condenado pelos homens.
domingo, 16 de junho de 2013
Chantagem humanitária
De Luanda, um artigo de Martinho Junior sobre a Guiné-Bissau.
«Os países da CPLP que deveriam incrementar a ajuda directa ao povo da Guiné Bissau contrabalançando o esfriamento político, foram incapazes de o fazer.»
A (não) ajuda, que deveria ser orientada para fins humanitários, tem sido utilizada como instrumento de pressão, ao serviço de interesses ainda por esclarecer.
O autor defende uma ideia interessante, aliás consagrada na doutrina católica do «direito à revolta». São Tomás de Aquino estabeleceu que, quando o poder soberano é manifestamente iníquo e mantém a sociedade numa violência intolerável, os súbditos têm o direito (e mesmo o dever) de revolta e de procurar uma outra organização da vida social; direito esse que recomendava limitar pela prudência, ou seja, nunca se deveria arriscar a cair numa situação ainda pior que aquela que se pretende combater. Seria como saltar do caldeirão para ir cair no lume (uma boa achega às teorias brasileiras, forjadas na Líbia, depois infelizmente confirmadas); a emenda não deve ser pior que o soneto.
Neste ponto em particular, discordo do autor, julgo que a situação seria hoje muito pior, se as coisas tivessem seguido o curso «normal», ou seja, sem o contra-golpe de 12 de Abril.
sábado, 15 de junho de 2013
Africa Monitor 655
Prognóstico datado de 17 de Abril de 2012:
Guiné-Bissau: Golpe de Estado tendencialmente em refluxo
Está em acentuação uma tendência capaz de fazer fracassar o golpe de Estado de 12 de Abril – desfecho configurado numa não materialização dos seus “objectivos” e regresso à ordem política anteriormente vigente: reposição em funções do PR interino, Raimundo Pereira, e do Governo; reatamento do processo eleitoral interrompido. Para que o golpe gradualmente não tenha tido condições suficientes para se impor concorreram as múltiplas reacções internacionais (organizações e governos), consonantes no seu pendor de condenação/admoestação, bem como o isolamento interno dos autores do golpe (...)