José Eduardo dos Santos, sentindo-se ameaçado, avançou para um «plenário» com a juventude. Até o caso dos dois activistas desaparecidos o ano passado foi referido, mas a situação de Emiliano Catumbela manteve-se tabu, o que não deixa de ser bastante revelador...
É impensável que, de entre os presentes, ninguém se tenha lembrado de perguntar aquilo que vai no coração de tantos angolanos... em relação à sanha cega de José Eduardo dos Santos. Mas esta «abertura» é sobretudo uma vitória de Luaty, Emiliano e alguns jovens mais.
O Jornal de Angola, para o qual me chamou a atenção o No Djemberém, traduziu empowerment por «emponderamento» (o corrector ortográfico está-me a sublinhar de vermelho, e com razão). Mas é natural, a falta de jeito para a tradução do inglês (aliás, americano).
A tradução deve ser conveniente e adequada. É que empowerment quer dizer transmitir poder, o que não foi claramente a intenção (basta olhar para a foto e a pose formal e doutoral do um para todos). Para neologismo, empoderamento é mau, mas admissível.
A ponderar, se estamos perante boa fé do Presidente ou simples maquilhagem do regime da parte de José Eduardo dos Santos... O futuro o dirá. Esperemos que não saia frustrado.
domingo, 23 de junho de 2013
Neologismo angolano
Hunger in Guinea-Bissau
Uma amiga italiana com quem troco selos, a Lisa, escreveu-me preocupada, depois de ter lido na imprensa italiana as declarações de Ramos Horta, alertando para a situação de crise alimentar na Guiné-Bissau, e sabendo do meu interesse pelo país. Depois de me pedir para lhe explicar em poucas palavras a situação (disse que tentara pesquisar na internet, «mas não tinha percebido nada») terminava, ao despedir-se, desejando boa sorte aos guineenses.
Transcrevo aqui a minha resposta, em inglês, que é a língua que utilizamos para nos correspondermos.
And thanks for your wishes for Guinea-Bissau. Italy contributed greatly in the end of the 70's and early 80's with aid to the country. People want to start again there, in one of the poorest countries in the world: we have many qualified people around the world and we will show the example to Africa, as we already did, only with Argelia in Africa, liberating ourselves from colonialism. What Selassie did not acheive (alone, without foreign help) with Mussolini. Now we need trust from around the world, against the neo-colonialist campaign that the portuguese gouvernment is leading, acting as Guinea-Bissau remains a colony. Maybe, as philatelist, you know the name of Guinea-Bissau, but you can not see it at first view in the globe, between Senegal and another Guinea (ex-french), and there are not many people knowing the name... People in Guinea feel some times forgotten by the world (only 3h flight from Lisbon). But believe that GB is a beautiful country, asfixiated and blocked by Portugal and European Union since more than one year (not only cutted all the humanitarian help but also created obstacles to incipient local economy), under political alegations of coup d'etat (no blood - and it was not a coup, but a counter-coup that ousted a traitor conspirating with alien military forces, that after being hold, was released by humanitarian reasons). People feed great hopes to the momentum, but because of the political blocus and a bad cotation year, the kashew campaign (financing basic rice for 2/3 of families - Census 2010) was really bad (producer couldn't get more than 1/3 last year prices per Kg) ; increasing the problems, all imported goods are scarce and out of price, from milk powder for children (it's not nice, with so much EU milk excedent, to condemn bissau-guinean children) to gasoline pricing more than 2€/L...
sábado, 22 de junho de 2013
Reforma das FA
Ramos Horta aterrou em Dili e de lá fez saber que tem em preparação uma conferência sobre a Reforma das Forças Armadas a realizar em Julho. O Representante Especial do Secretário Geral das Nações Unidas parece disposto a pegar o boi pelos cornos.
Nesse contexto, gostaria de sugerir uma possibilidade: a introdução do Serviço Militar Obrigatório, com período curto (estilo seis meses), de forma a rejuvenescer as FA e a reconstituir, no seu seio, o mosaico étnico que constitui a Guiné-Bissau, tornando-as e fazendo-as sentir como realmente nacionais.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Primatura vacante?
O Presidente Nhamadjo tem desempenhado com grande dignidade, eficácia e transparência o mandato recebido do Comando Militar que assumiu o contra-golpe de 12 de Abril do ano passado. Tem dado entrevistas em cenários caseiros e informais (veja-se as que concedeu ao Doka) e não foi por isso que os parentes lhe caíram na lama.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Divergências na CPLP
Grandes divergências em torno da Guiné-Bissau, na reunião informal dos Presidentes dos Parlamentos da CPLP, motivaram um bom atraso nos trabalhos, mas acabaram por dar origem a uma decisão histórica: o reconhecimento do Pacto e Acordo de Transição, saídos do golpe do ano passado, abrindo assim o caminho à regularização da situação da Guiné-Bissau na organização.
Ramos Horta não apareceu na conferência de imprensa, mas mandou recado: tem um «plano completo e bem organizado na cabeça» para a Guiné-Bissau. Grande cabeça... Pena que não lhe tenha ocorrido que os interessados poderiam gostar de conhecer em primeira mão esse projecto global e finalizado (enlatado e «chaves na mão», funciona sempre e prescinde dos guineenses)...
Uma vez que foi convidada a delegação guineense (presume-se que a título de «observador»), seria interessante que um jornalista «a sério» tratasse de descobrir (para a história) a razão das fortes divergências ocorridas. Eu não sou mosca (quer dizer, só de nick), mas presumo que o representante de Angola terá sido um dos pólos de divergência, como fez questão de informar...
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Herança de Paz
A Bola publica hoje um artigo dedicado a Mandela, no qual De Klerk, a «cara metade» de Madiba no Nobel de 1993, realça o seu importante legado: uma transição pacífica, que sobreviverá ao seu funeral.
O desapego ao poder pessoal, foi decerto um factor importante nessa herança. Quem o abandona em vida, conserva-o no além: quem a ele se agarra nesta vida, será abatido por Deus e condenado pelos homens.
domingo, 16 de junho de 2013
Chantagem humanitária
De Luanda, um artigo de Martinho Junior sobre a Guiné-Bissau.
«Os países da CPLP que deveriam incrementar a ajuda directa ao povo da Guiné Bissau contrabalançando o esfriamento político, foram incapazes de o fazer.»
A (não) ajuda, que deveria ser orientada para fins humanitários, tem sido utilizada como instrumento de pressão, ao serviço de interesses ainda por esclarecer.
O autor defende uma ideia interessante, aliás consagrada na doutrina católica do «direito à revolta». São Tomás de Aquino estabeleceu que, quando o poder soberano é manifestamente iníquo e mantém a sociedade numa violência intolerável, os súbditos têm o direito (e mesmo o dever) de revolta e de procurar uma outra organização da vida social; direito esse que recomendava limitar pela prudência, ou seja, nunca se deveria arriscar a cair numa situação ainda pior que aquela que se pretende combater. Seria como saltar do caldeirão para ir cair no lume (uma boa achega às teorias brasileiras, forjadas na Líbia, depois infelizmente confirmadas); a emenda não deve ser pior que o soneto.
Neste ponto em particular, discordo do autor, julgo que a situação seria hoje muito pior, se as coisas tivessem seguido o curso «normal», ou seja, sem o contra-golpe de 12 de Abril.
sábado, 15 de junho de 2013
Africa Monitor 655
Prognóstico datado de 17 de Abril de 2012:
Guiné-Bissau: Golpe de Estado tendencialmente em refluxo
Está em acentuação uma tendência capaz de fazer fracassar o golpe de Estado de 12 de Abril – desfecho configurado numa não materialização dos seus “objectivos” e regresso à ordem política anteriormente vigente: reposição em funções do PR interino, Raimundo Pereira, e do Governo; reatamento do processo eleitoral interrompido. Para que o golpe gradualmente não tenha tido condições suficientes para se impor concorreram as múltiplas reacções internacionais (organizações e governos), consonantes no seu pendor de condenação/admoestação, bem como o isolamento interno dos autores do golpe (...)
Delfim reforça papel do Presidente
Num entendimento do papel presidencial «à francesa», o Ministro dos Negócios Estrangeiros deslocou-se à Presidência, para acertar as agulhas da sua postura. Tal como o Didinho chamou a atenção, o discurso inicial precisava de ser corrigido, senão poderia ser lido como uma «submissão»: na altura, propôs condimentar a «não confrontação» com uma pitada de afirmação!.
À saída da Presidência, a necessária correcção, diplomaticamente e por outras palavras: «abrir portas e não fechar portas, mas significa também criar opções e não reduzi-las» (diga-se que a imagem escolhida, para a não confrontação, foi literalmente feliz): assim está melhor, senhor Ministro, deverá sempre cuidar de ampliar a margem de manobra, aumentar os graus de liberdade.
O Senhor Presidente está de parabéns, pela actuação informada, empenhada e em tempo útil. Julgo que está a dar ao mundo um exemplo não só de boa governança como de verdadeira democracia, ouvindo as vozes relevantes que se vão levantando e dando o seu contributo para o reforço da dignidade nacional, tão duramente afectada no decurso dos últimos tempos. Ver comunicado.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Uma no cravo outra na ferradura
Omitindo o facto de que a Guiné-Bissau continua suspensa dessa organização, a CPLP publicou um comunicado no qual afirma ter tomado conhecimento, com satisfação, da formação de um governo inclusivo, de forma a voltar ao «concerto das nações»; talvez fosse por aí que deviam começar, preocuparem-se em rectificar a extemporânea atitude de exclusão, no mínimo incoerente (para não lhe chamar estúpida), por parte de uma comunidade linguística de ordem cultural.
Mas o que mais choca é o padrão de má fé que parece sempre subjacente ao discurso de Portugal e da CPLP: embora tenham finalmente tido de engolir a realidade que se recusavam a admitir, acrescentam sempre uma nota, para salvar as aparências e a honra da «donzela». Na recente declaração conjunta Portugal-Brasil, foi a parte «inventada» da subordinação dos militares ao poder político; desta vez falam de «respeito pelos direitos humanos, incluindo a possibilidade de regresso dos cidadãos no exílio». Tinha de ser.
Parece-me que, ao contrário do que trataram de promover contra os promotores do contra-golpe, que estão proibidos de se deslocar aos vossos países, nunca foi vedado a ninguém o retorno à Guiné-Bissau (o que seria decerto inconstitucional, tratando-se de um cidadão nacional); talvez um cidadão em particular, tenha sido momentaneamente desaconselhado a voltar, por preocupações com a sua própria segurança. Mas foi desaconselhado e não proibido. Tanto não estava impedido de o fazer, que chegou a ser intimado a comparecer em Tribunal, tendo o próprio considerado inoportuna tal deslocação (encontrando-se portanto actualmente na situação de desobediência civil).
Desafia-se a CPLP a esclarecer quais são esses casos de «cidadãos no exílio» impedidos de regressar ao país. Houve realmente uma proibição em relação a certas pessoas, mas foi ao contrário, era de deixar o país, não de entrar. Uma organização internacional deveria ser mais cuidadosa, no tipo de comunicados que emite. Por que razão generalizar ao plural, se estão a falar do caso singular que todos conhecemos? Mas já perguntaram ao referido cidadão «no exílio» (primeiro fartaram-se de espernear para o arrancarem ao seu país natal e agora queixam-se?) se tem condições psicológicas para enfrentar um retorno (ao país, não ao seu estatuto anterior)?
Se não tem coragem para se apresentar em Bissau, pode sempre marcar o Congresso do PAIGC para Lisboa, fretando um charter numa operadora aérea low cost: se o profeta não vai à montanha, que venha a montanha até ao profeta. A CPLP deveria rever as suas apostas. E se estão realmente preocupados com os Direitos Humanos, porque não debruçarem-se sobre a situação angolana, onde ainda há poucos dias foram enviados 25 polícias de choque, apenas para maltratarem, na sua própria casa, à frente da mãe e do irmão, um jovem músico cujo único crime foi ter participado numa manifestação pacífica. Não justificaria um comunicado de preocupação?