sexta-feira, 1 de junho de 2012

Guiné na cimeira extraordinária da SADC em Luanda

José Eduardo dos Santos, frente a vários presidentes e cabeças coroadas, começou o seu discurso de abertura da cimeira extraordinária da SADC em Luanda, hoje dia 1 de Junho, lembrando a convocação de eleições em Angola; fez o elogio da democracia, para em seguida se referir à Guiné-Bissau, para condenar o golpe de estado.

«Não pode ser tolerado o ressurgimento dos golpes de Estado em África, pois eles constituem vias ilegais para a conquista do poder político que contrariam os princípios fundamentais e valores defendidos pela União Africana. Nós juntamos a nossa voz à de todos aqueles que já condenaram os golpes de Estado ocorridos no Mali e na Guiné-Bissau».

O pequeno sinal de abertura viria a seguir «saudamos os esforços sub-regionais em curso com vista à manutenção da paz, da estabilidade e do restabelecimento da ordem constitucional.» Sauda assim SUBTILMENTE a CEDEAO (magnífica obra de retórica do seu consultor de imagem brasileiro: num contexto «sub-regional» oculta a rivalidade geográfica CEDEAO/SADC; com a verdade me enganas), que dará cobertura à retirada da MISSANG: ao sapo que acabara de engolir chama-lhe «via do diálogo paciente e inclusivo e da negociação». Esperemos que sim, de boa fé e sem retrocessos desnecessários...

http://www.portalangop.co.ao/motix/pt_pt/noticias/politica/2012/5/22/Discurso-Jose-Eduardo-dos-Santos-abertura-Cimeira-SADC-Luanda,66a91f02-a3b6-4dfd-ae45-5a7b6b9208bf.html

Compõem a SADC: África do Sul, Angola, Botswana, Congo, Lesoto, Madagáscar, Malawi, Maurícias, Moçambique, Namíbia, Seychelles, Swazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbabwe.

Paulo Portas no Index

Ao abrigo do princípio da reciprocidade nas relações internacionais, deveria ser brevemente publicada uma lista de sanções a aplicar a personalidades portuguesas, proibidas assim de entrar na Guiné-Bissau, à cabeça das quais Paulo Portas, mas onde também constariam Cavaco Silva e António José Seguro, por desrespeito para com o actual Estado das coisas na Guiné e fomento da subversão da ordem pública em chão alheio.

P.S. Parece que só não se avança com a medida, pois seria tão ridícula como aquela tomada pela União Europeia.

António Patriota para Nobel da Paz

Brasil propõe nova Ordem Mundial

O Ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, forte da experiência pela qual passou na Guiné, apresentou uma proposta defendendo novos modelos para a gestão internacional de conflitos armados, baseados no patriotismo e no diálogo, cujo conteúdo se aplica perfeitamente à situação na Síria, tal como aliás, se teria aplicado na Líbia, evitando assim a desgraça que todos vimos, o martírio de Sirte, guerra, violência e sofrimento na sua expressão máxima (e ainda tendo como efeito o agravamento das circunstâncias políticas, tal como no Iraque, Afeganistão, etc).

As razões de António Patriota parecem legítimas e levam-nos a questionarmos: devemos assistir passivamente à imposição de uma nova Ordem Mundial baseada na agressão, no medo e num estado de guerra permanente? Não haverá uma responsabilidade ao proteger, baseada numa simples premissa: de que a cura não pode ser pior que o mal? Já São Tomás de Aquino, ao defender o direito à revolta, afirmava que uma das condições para «avançar» era a de não causar na sociedade uma perturbação maior do que aquela que se pretende remediar... Mas como aqui chegámos? Como se deu o colapso da ONU?

Com a queda do muro de Berlim gerou-se uma dinâmica de colapso sistémico do império soviético; os Estados Unidos ficavam assim vencedores da Guerra Fria, assumindo-se como única potência mundial.
Nesse mesmo ano, o Iraque invadiu o Kuwait; a comunidade internacional condenou a agressão numa atitude firme. Depois do sucesso da operação Tempestade no Deserto, quando alguns generais americanos sugeriram a destruição do exército iraquiano em retirada, o bom-senso prevaleceu na Administração Norte-Americana: as suas tropas pararam na fronteira do Iraque. O objectivo não era a mudança de regime no Iraque mas a reposição da Ordem Internacional. O entendimento era de que a derrota do ditador provocaria uma luta fratricida pelo poder, senão mesmo uma guerra civil e a fragmentação do Iraque, sendo portanto contrária à ordem mundial e à estabilidade da zona.

A partir desta atitude, revelando comedimento e equilíbrio, a tendência parece ter sido para os Estados Unidos assumirem um papel cada vez mais prepotente e arrogante. Já sem rival à altura, as suas decisões deixaram de ser negociadas, passando a ser cada vez mais impostas, recorrendo para isso ao seu poder financeiro, diplomático e militar. Esta situação criou uma animosidade e uma aversão crescentes, junto de identidades que se julgavam severamente humilhadas, como a muçulmana em particular.

A 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos, que nunca tinham sido atingidos no seu território, sofreram um devastador atentado terrorista conduzido por uma pequena célula, o qual superou, na escala do «orgulho» ferido americano, o de Pearl Harbor, sessenta anos antes. Este facto condicionou fortemente esta última década, com uma forte paranóia securitária a tomar conta não só dos aeroportos, mas também das relações internacionais, com a «invenção» pelos Estados Unidos de sucessivos inimigos, continuando assim a alimentar os ciclos do ódio, da vingança e do medo, sob a bandeira genérica de «Guerra ao Terror».

A hipocrisia parece ter-se tornado senhora do palco internacional. Teme-se que a Síria seja um rastilho e são desesperadamente necessárias ideias novas, novos paradigmas diplomáticos e legais que evitem o pior... Deveria ser criada uma comissão para propor António Patriota para Prémio Nobel da Paz.

Ponto da situação na Guiné-Bissau

Sua excelência o Embaixador Francisco Henriques da Silva, que representou Portugal na Guiné na guerra colonial como soldado; e depois no período da Guerra de Libertação da Junta Militar, como diplomata, deu uma conferência na Sociedade Histórica da Independência de Portugal sobre a situação no país (aproveitou para prometer para breve um livro sobre a sua experiência em Bissau nos anos 1997/99...).

Permitam-me que realce dois pontos notáveis:

«Os golpistas vão beneficiar do factor tempo e este é a melhor panaceia para todos os males e para a resolução de todos os problemas. A Nigéria e as francófilas Costa do Marfim e Senegal ganharam a partida, mas Angola estava, claramente, a jogar out of area. O golpe consolida-se com cada dia que passa. Um governo acaba de tomar posse. Os militares afirmam que vão regressar às casernas. Entramos, pois, na via da “normalização.”»

«Por muito que Cadogo, Portugal, Angola e “tutti quanti” queiram,  é virtualmente impossível que os dirigentes depostos regressem ao poder. Nem isso faria muito sentido, mesmo que fosse exequível»

Fica a curiosidade em relação ao seu novo livro, esperando que se autorize a contar os meandros das intrigas decorridas em Lisboa entre os espiões partidários de Nino Vieira e os apoiantes da Lusofonia, encabeçados pela pessoa do então bastante activo Secretário de Estado para a Cooperação... E de como se deu uma subtil, mas firme e sustentada, alteração do sentido da opinião pública portuguesa, inicialmente a favor da «legitimidade democrática».

P.S. Caro Senhor Embaixador, uma vez que referiu a actual «blogosfera», mosca tsé-tsé residente dispõe de um arquivo digital da guerra «virtual» travada na Internet (no período em causa 1998/99), sobretudo através de Fóruns de Discussão, que coloca desde já à disposição de Vossa Excelência.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os cães ladram e a caravana passa

Interessante artigo sobre a Guiné-Bissau de um jornalista angolano, a propósito da extensão das sanções da UE a mais quinze nomes a anunciar amanhã no jornal oficial...

http://altohama.blogspot.pt/2012/05/ue-nao-sabe-o-que-diz-e-nao-diz-o-que.html

A UE afirma ainda não reconhecer o Governo de Transição por este «estar aparentemente sob o controlo dos militares».

Angola desmente adiamento

Segundo a Reuters, afinal parecem ter sido ultrapassadas as «dificuldades de ordem técnica» que se anteviam para a retirada da MISSANG, tendo Angola negado os insistentes rumores de adiamento da partida do seu contingente militar, apressando-a para começar já este fim de semana prevendo que se possa prolongar no máximo até 10 de Junho, dia de Portugal e das Comunidades de Língua Portuguesa. Esperemos que sim.

Quatro aeronaves vão estar envolvidas na operação. Já o igualmente anunciado navio... talvez se fique apenas pelas intenções. Parece uma medida razoável, não adiar mais a resolução de uma situação desconfortável para todos os envolvidos.

Tentativa de manipulação mediática

A LUSA emitiu ontem, dia 30 de Maio, dois comunicados sobre a Guiné-Bissau, sem aparente correlação formal: no entanto, ambos se referem a embaixadores nesse país.

O primeiro anuncia a decisão de Portugal de retirar o seu Embaixador de Bissau, cuja reposição condiciona ao retorno da ordem constitucional no país.

Numa atitude mais construtiva, o embaixador da França na Guiné-Bissau, recebeu o novo Ministro dos Negócios Estrangeiros, dando conta das expectativas da França quanto ao cumprimento do Roteiro do Governo de Transição, o que foi objecto de um segundo comunicado.

Nesse comunicado imputa-se ao diplomata a utilização no seu discurso do termo «imperativos», emprestando-lhe assim muito convenientemente um tom de diktat, próprio para acirrar ânimos anti-gauleses. Não parece muito provável que o senhor Michel Flesh, como diplomata de carreira, formado em Estudos Políticos, cometa gaffes tão grosseiras como aquelas que o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal tem vindo a cometer neste dossier. Se utilizou a palavra, deve ter sido noutro contexto, sem o relevo que lhe quiseram dar. Ainda bem que o jornalista deixou o rabo de fora, utilizando aspas...

A mensagem «de despedida» para os guineenses não poderia ser mais clara: «Olhem que os franceses são mais mandões que nós». Talvez os dois comunicados pudessem ter sido sintetizados num só, com o título: Portugal sai, França entra. Mais um tiro no pé de Paulo Portas.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Temporização indecente e improcedente

Angola estará porventura a fazer um erro de cálculo, nesta terminal tentativa de se agarrar ao chão. Ango-lapa não larga rocha. Firme que nem rochedo. No entanto, mais vale dobrar do que quebrar. Partir da Guiné ou partir tudo na Guiné?

Jogo perigoso, contra o tempo, que não joga a favor de José Eduardo dos Santos... Só aumenta mesmo a sua exposição à incerteza, até porque a imprensa internacional parece ter finalmente levantado a lebre da MISSANG, como principal factor do berbicacho.

A CEDEAO tem dificuldades em mandatar de forma precisa e em capacitar os seus representantes, demasiado complacentes face às contrariedades relativamente a objectivos básicos: como é possível que numa reunião para tratar de pormenores simples, se deixem enredar nos subterfúgios de Angola?

«Dificuldades técnicas»? Estarão a brincar? É de mau gosto. 3 viagens charter do mesmo avião e 10 idas e vindas (10m) do mesmo autocarro seriam suficientes... Porque se armam em esquisitos? Agora só saem se o autocarro tiver ar condicionado? Não estão em posição de condicionar...

Para quê tentar travestir a situação que já todos perceberam? Só chamam ainda mais a atenção! Que falta de fair play e de «recreio»! A provocar? É o princípio do chicote em funcionamento, mas se a CEDEAO abdica de cumprir o papel essencial com o qual se comprometeu, apenas demonstra, neste momento crítico, uma inoperância perigosa (para além de uma forte possibilidade de serem dispensados como incompetentes).


E, em último caso, voltar-se-á à casa de partida, com nova subida da tensão... Brevemente, com toda a provocação, a benevolência inicial para com os cambas assumirá cambiantes de merecida humilhação, com uma marcha forçada, apeada e apenas com bagagem «de mão». Não esperem pelo último barco...

Adiamento sine die e unilateral de uma retirada anunciada? Parece muito má opção, atendendo ao contexto politico e militar. O Comando Militar ver-se-á assim obrigado, mesmo que a contra-gosto e a título de estado de excepção, a voltar a sair das casernas para assegurar a soberania nacional.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Pistas de Zamora apontam novamente Banjul

Sim, o jogo de comunicados e contra-comunicados continua, agora pela voz de Ensa Jawara, porta-voz do Ministério da Imigração da Gâmbia em declarações à France Press. Zamora estaria em Banjul em guarda à vista...

Parece o jogo do empurra.