sábado, 5 de maio de 2012
Legitimidade III
Segundo comunicado da Liga emitido hoje dia 5 de Maio: «Desde o conflito politico-militar de 7 de Junho de 1998 que o país reclama medidas consistentes, sustentáveis e adequadas (...) o problema guineense deve ser resolvido com base nos interesses nacionais objectivamente estruturados e não com base nos interesses geo-estratégicos sub-regionais ou continentais.» A legitimidade da antiga Constituição é igual à de Raimundo Pereira para CEMFA: ou seja, nula.
O Comando, logo nos primeiros dias, ancorou a sua legitimidade numa proposta de transição «técnica» afastando o «político» da praça pública. Conseguida uma solução «em branco», justifica-se, como afirmação de seriedade, a política da «tábua rasa». Dissolução dos vínculos do ex-PAIGC com o Estado, ao nível da própria bandeira; dissolução da Constituição; dissolução do Governo. Vários cenários para 12 meses de transição, mas o que parece perfilar-se e de longe o mais substancial
o de um chefe de estado militar, como responsável e garante da afirmação da soberania nacional e da estabilidade político-militar, reunindo as competências de Presidente e Primeiro-Ministro;
um governo colectivo consubstanciado num Fórum de Discussão / Decisão, conforme vários sinais substantivos de interacção com a sociedade civil dados pelo Porta-Voz do Comando
«A Guiné-Bissau precisa de um novo modelo de sociedade» afirmou hoje, dia 5 de Maio, o sociólogo guineense Ricardino Teixeira, autor do livro “Sociedade Civil e Democratização na Guiné-Bissau”.
http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article75862&ak=1
Considera que a Guiné-Bissau precisa de um novo modelo social assente na valorização da manjundade, que define como «um grupo pedagógico, cultural e político, com capacidade de articular os diferentes grupos étnicos em torno de objectivos comuns. Este grupo deve constituir-se numa rede governável na diversidade e implicando a sociedade civil».
Tentando traduzir para português o termo em poucas palavras: convívio dos mais velhos e esclarecidos.
Com os créditos adquiridos e uma legitimidade «virgem», pede-se agora a Daba Na Walna que se empenhe na sua nova carreira, se dedique a formalizar juridicamente uma nova soberania no novo Estado da Guiné-Bissau. Uma tarefa essencial, para além do «design» da nova Constituição (os acertos já foram admitidos pela CEDEAO), será a elaboração de um inventário de recursos minerais e de estratégias ou projectos de rentabilização relacionados, prevendo mecanismos de controlo técnico independente por parte do Estado, bem como a integral transparência dos contratos (e das Contas do novo Estado), dando assim garantias de seriedade técnica e continuidade económica tanto a investidores como aos guineenses.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Força portuguesa sai
http://visao.sapo.pt/forca-portuguesa-sai-da-guine=f662564
Mesmo a corveta e a fragata que «faltam», sem logística, não está previsto que se atardem.
Hora di BYE, BYE.
Ditadura do Consenso recupera equipamento
Pleonasmo ou retórica?
Ora, em primeiro lugar, as duas palavras apresentam nuances e portanto complementam-se (endógeno, nasce de dentro, mas é livre; interno, tem a ver apenas com o que está lá dentro e assim se mantem);
Em segundo lugar, o seu discurso militante e parcial destina-se a convencer e a ser lembrado (permanecer na memória implica uma certa dose de repetição, é o que faz a publicidade, nunca vemos um anúncio uma só vez) e encontra-se estruturado com base numa retórica consistente.
Neste contexto, chamar analfabeto a Daba apenas demonstra a falta de Fair Play, o nervosismo e o comportamento primário de alguns actores. Uma coisa é dizer «subir para cima», ou «pareceu-me bem parecido».
Mas se eu disser «lamber com a língua»? Pois claro, havia de ser com quê? Mas a redundância redunda neste caso numa valorização do dito, num empolamento do efeito: ao acrescentar à descrição do acto, o respectivo instrumento, facilita-se a construção da imagem mental. Daba utilizou uma figura de estilo, de retórica hiperbólica. É um verdadeiro bólide: demolidor.
Talvez seja melhor esquecerem a língua portuguesa, pois ela é muito traiçoeira. Já a atitude, essa, parece mais de inveja, se não mesmo de desespero. Em vez de criticarem o que não percebem, aproveitem para aprender com o senhor Porta-Voz. Encosta-vos a um canto, dá-vos um chuto com a ponta do pé!
La pagaille à Dakar
A cimeira extraordinária da CEDEAO reunida esta noite em Dakar para tratar da questão da Bissau acabou por ser absorvida pela rápida e perigosa evolução da situação no Mali; o Comando Militar também não leva a mal que passem o «problema» da Guiné-Bissau para segundo plano. O presidente em exercício da organização lembrou, a propósito, que a principal vocação da Comunidade é «a construção de escolas» e não a arbitragem de conflitos políticos... Para bom entendedor, meia palavra basta.
Não gostou decerto da «marcação ao homem» que Paulo Portas e José Eduardo dos Santos lhe andavam a mover incluindo: «enviados especiais»; dos anúncios de auto-intitulados-ministros dos «negócios estrangeiros» fantoches, contrariando a organização (e com pretensões de falar em nome da ONU); das notícias orquestradas a partir de Luanda quanto ao peso dos franceses em África, escarnecendo a «FrançÁfrica»; e das afirmações tentando pressionar as decisões da organização por parte do presidente da CPLP. Banjul tinha sido de facto a última jogada dos partidários da guerra, com as tentativas ofensivas, mas falhadas de Jameh para destabilizar os intervenientes guineenses, ao recebê-los sempre em separado e apostando na intriga...
C'est la zizanie. E uma clara vitória do Comando, em especial do seu Porta-Voz. As leituras são óbvias: a transição foi legitimada pela CEDEAO, sem que esta conseguisse fingir sequer a aparência de um «retorno» à ordem, através da imposição do ex-Presidente. A força em espera, será mobilizada apenas para o Mali, onde há um conflito, mas ficará à espera de ser convidada para entrar. A organização passará a dar mais importância às questões do desenvolvimento económico e da integração regional. Lacónico.
Tal como Daba garantiu, não haverá qualquer intervenção de forças estrangeiras na Guiné-Bissau.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Alarmismo barato
Notícia original:
Segundo a Lusa, citando por fonte o Ministério da Defesa, Portugal estaria a avaliar a retirada da força naval, que inclui, para além dos dois vasos de guerra e navio de logística já conhecidos, uma outra fragata, a Bartolomeu Dias, cuja presença na área não tinha sido anunciada à comunicação social. De acordo com a TVI, José Pedro
Aguiar-Branco recusa ter havido qualquer intenção de fazer segredo com
a última
fragata.
Mas o jornalista do Correio da Manhã não soube ler bem a notícia e anuncia na penúltima página da edição de hoje que «Ontem, partiu a terceira fragata», em lugar de destaque de «última hora»! Não foi ontem, foi há duas semanas; a notícia é de que vão voltar à base e não atacar; e não é a «terceira» fragata, mas a segunda, pois também lá anda uma corveta.
Guiné-Bissau: Fragata a caminho
Comentário mais votado (Natália)
terça-feira, 1 de maio de 2012
Diligências continuadas

Pretória, África do Sul. Exemplo mundial de tolerância. Quando Nelson Mandela visitou o homem que o mandou prender, deu um sinal claro, com essa atitude: se ele próprio, que tinha razões de sobra para odiar, perdoara, ninguém se sentisse com «legitimidade» para vinganças.
O presidente de Cabo Verde, que pertence ao Grupo de Contacto da CEDEAO para a Guiné-Bissau, reuniu com responsáveis de Angola, Namíbia e África do Sul... As suas declarações foram mais prudentes que as do Primeiro-Ministro, ao reconhecer que a Guiné é um «caso complexo». Precisamente. Obrigado, Nelson.
Nesse contexto, o investigador cabo-verdiano Corsino Tolentino deveria ser levado a
sério, quando põe em guarda o seu governo contra uma atitude demasiado
marcada na questão da Guiné, aconselhando prudência e distanciamento
relativamente à CEDEAO, que parece ter passado ao lado de uma grande
oportunidade de afirmação regional e internacional, calmamente e sem
violência, depois da vitória diplomática que obteve o seu «ultimato».
http://www.portugues.rfi.fr/africa/20120430-comando-militar-da-guine-bissau-nao-aceita-pressoes-da-cedeao
Após um bom augúrio inicial, e das provas de boa vontade dadas, foi de uma forma rígida e pretensiosa que
esta organização tentou encostar à parede o Comando Militar, sem
argumentos palpáveis, pois o que puseram no prato da balança, pior que
muito pouco, é uma ofensa às forças armadas guineenses: então, com 500 a
600 homens (de várias nacionalidades), pensam invadir a Guiné? Fazem
lembrar o «valente» Coronel senegalês que prometeu a Diouf tratar da
«questão» em 24h... a sua caveira foi depois mostrada na televisão em
mãos da Junta. E tiveram Nino para lhes garantir o desembarque...
Antigamente, enviavam-se forças de paz para zonas em guerra; agora,
pelos vistos, falam em enviar forças de guerra para zonas em paz! O Comando Militar não podia dar o que não lhe pertence: a sua única
legitimidade, para além da força, nesta situação, foi o ter-se oposto,
com razão, à intenção de envio de forças estrangeiras. Em relação a esse ponto, pelo menos, os guineenses parecem estar de acordo, pois ninguém vê com bons olhos a presença de forças estrangeiras, mesmo se alguns defendem ser esse um mal menor.
Depois da Costa do Marfim, está mais que visto que a ingerência, através de missões de «cooperação» técnico-militar, nos assuntos internos de outros países, só pode prejudicar: é que qualquer visão exógena é forçosamente redutora. Nenhum soldado estrangeiro tem legitimidade para se imiscuir em questiúnculas internas de um país independente e soberano, sob risco de mal entendidos galopantes...
sábado, 28 de abril de 2012
Caçada ao elefante II
Não nos vamos precipitar a fazer leituras apressadas... Daba Na Walna é uma maravilha política, extremamente selecto na escolha das palavras. Na sequência da aceitação, logo no início do prazo dado, de todas as imposições da CEDEAO:
Foram ex-patriados o ex-Presidente interino e o ex-Primeiro-Ministro. Foi mesmo admitida a hipótese de poderem vir a ser nomeados respectivamente Presidente interino e Primeiro-Ministro do Governo de Transição (cuja duração foi acordado reduzir para um ano); sublinha-se que a legitimidade governativa lhes vem do Comando Militar e não de qualquer eleição ou situação anterior.
O novo Governo legítimo a constituir, com o apoio da CEDEAO e do Comando Militar, graças ao presente protocolo, ao consolidar as perspectivas de consolidação da paz, segurança e estabilidade governativa no país, permitirá decerto rentabilizar esta oportuna iniciativa diplomática e poupar maiores esforços no futuro à Comunidade, estando previsto, no âmbito da sua «Force en attente», mobilizar, nos respectivos países, no espaço de três a quatro semanas, uma força de 500 a 600 homens (dont le deployement devra être mis au point entre les signataires).

É uma grande vitória do legítimo presidente da Costa do Marfim, anfitrião da reunião de Abidjan, aliás conhecedor das questões geo-políticas em questão, depois de uma transição complicada ainda há relativamente pouco tempo no seu próprio país, com o seu rival a recusar-se a acatar os resultados eleitorais, contando mesmo para isso com o apoio de forças estrangeiras presentes no terreno.
Portugal «estuda» a retirada da sua Força. A ONU delegou na CEDEAO, portanto, face ao sucesso desta, qualquer iniciativa no Conselho de Segurança acerca da Guiné-Bissau perdeu oportunidade e será adiada para as calendas gregas. Os Estados Unidos, até aqui discretos entraram de cabeça para salvar Angola: declarações do Embaixador, a senhora Clinton endereçou um convite a Georges Chicoti para lhe fazer uma «visita de alto nível», com o objectivo (quase hilariante) de o desagravar das injustas acusações de que, na sua opinião, tem vindo a ser alvo no âmbito da questão da Guiné.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
i = 0 em geografia
http://www.ionline.pt/opiniao/catch-22-golpe-militar-na-guine-bissau
http://ditaduradoconsenso.blogspot.pt/search?q=22+catch
mas a sua superficialidade jornalística deixa muito a desejar, pois, ao contrário do que presume quem o lê, a Guiné Equatorial, mal grado a sua proximidade onomástica, é encostada a Angola e não à Guiné-Bissau. A não ser que «região» seja África inteira! Olhe primeiro para o mapa, recolha informações e veja as notícias, antes de fazer «apostas» desinformadas e mal aconselhadas para o futuro.
Não deu parte da encomenda, pois trai-se uma segunda vez quando acrescenta o epíteto de «ditador» ao recente aliado de José Eduardo dos Santos. Vamos ter de lhe dividir o crédito (22 cachas) para um sétimo... Piiiiiiiiiiiiii
Crónica de um golpe anunciado
Daba Na Walna continua a somar pontos. Atenção aos seus discursos, que são muito prudentes: quaisquer palavras, retiradas do contexto, podem induzir em erro. Antes de dar especial relevo a qualquer das suas afirmações, os jornalistas deverão atentar bem nas frases pos e pre-cedentes. É claramente uma arte da nuance. E Angola, face à alta qualidade diplomática e jurídica da face visível do Comando Militar guineense? Há um novo contexto geopolítico em desenvolvimento... Não arranjam nada mais original do que acusar os militares guineenses de serem manobrados por Kumba Yalá, numa base tribal, na feitura deste golpe de estado? A troco de uma «grande soma em dinheiro» entregue em pleno Estado Maior?
http://www.zwelangola.com/politica/index-lr.php?id=8754
Estão desactualizados: Daba foi bastante claro quanto a isso, na entrevista dada por à RTP em Bissau, há uma semana, quando a jornalista lhe apresentou essa questão «Não andamos aqui às ordens de ninguém». A «inventona» é grosseira demais e foi desmentida, sem sombra para dúvidas, uma semana ainda antes de formulada.
Resumindo o conteúdo das acusações, mesmo sem nexo: corruptos, tribalistas... Traficantes de droga e agora, pela voz da América, parece querer juntar-se-lhe mais um espantalho, o «risco de terrorismo», numa associação (muito es)forçada ao fantasma da implementação forçada da Charia no Norte do Mali, país que aparentemente implodiu e constitui agora a principal preocupação da CEDEAO (por razões diferentes, pois na Guiné-Bissau tem sido conservada a ordem e soberania nacional).
http://www.voanews.com/portuguese/news/trafico-de-droga-na-guine-bissau-podera-ajudar-terrorismo.html
Ora, já que falamos na VOA, para documentação, atente-se nos precedentes da actual crise, para melhor informação, graças a um seu artigo de 28 de Dezembro do ano passado: numa conferência de imprensa, Victor Pereira, porta voz da oposição
guineense acusou o
primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior de ter vendido "a alma" e
recursos do país a Angola, afirmando que a presença de militares angolanos na Guiné-Bissau constituía uma
"força de ocupação", considerando inadmissível que o
primeiro-ministro tenha sido resgatado da sua residência por "forças de
ocupação estrangeira" provenientes de Angola, fazendo uso de armas de fogo.
http://www.voanews.com/portuguese/news/12_28_2011_angolaaccusedofinereference_voanews-136318378.html
A hipocrisia recente (associada a uma memória convenientemente demasiado curta) no tratamento desta crise, na tentativa de submeter a Guiné, tem distorcido substancialmente os acontecimentos, regra geral subvertendo mesmo o seu próprio sentido, numa clara intenção de diabolização primária dos acontecimentos em Bissau, aparentemente orquestrada a partir de Luanda. O «presente de Natal» que Bissau teve no sapatinho pareceu antes uma moralização da situação, com a prisão do ex-Chefe de Estado Maior da Armada Bubo, recorrentemente apontado, tal como Nino, como conotado com o tráfico de droga. Recuando um dia e recorrendo à mesma fonte...
http://www.voanews.com/portuguese/news/12_27_2011_-136258333.html
Mas para refutar a interpretação de Guilherme Correia da Silva, ontem na VOA, em torno do espectro do terrorismo, veja-se a sua própria fonte, um livro do IISS, Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, com o sugestivo título de «Drogas, insegurança, Estados falhados e os problemas da Proibição» e constatar-se-á que a sua apresentação do assunto é, no mínimo, bastante pessoal. O grande desafio, para os investigadores, parece ser o de fomentar uma outra concepção para o «inerradicável» cancro (por mexer com dinheiro) que constitui o tráfico de drogas, ousando mesmo sugerir novas abordagens mais permissivas (citando mesmo como bom exemplo o caso de Portugal), senão mesmo uma liberalização que resolveria o problema de vez, pela raiz.
http://www.iiss.org/publications/adelphi-papers/adelphis-2012/drugs-insecurity-and-failed-states-the-problems-of-prohibition/



